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março 07, 2010

Da culpa

Para controlar a escumalha que anda a pé, e que se atreve a achar pode usar a rua, a PSP para anunciou que vai colocar agentes à paisana pelos passeios. Ao medo de ser atropelada, acrescerá agora o medo de ser agarrada a atravessar fora de uma passadeira.

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Quem em Lisboa utilize os transportes públicos suburbanos das 5 às 8 depara-se com uma realidade diferente da dos anúncios da televisão. Apinhados, são raros os homens, poucas as portuguesas, poucas as "brancas".

Há 2 anos na saída dos barcos do barreiro, no terreiro do paço, uma rapariga branca vinha da discoteca às 5 da manhã, a mais de 120 km/h, passou o vermelho e colheu a vida a duas senhoras cabo-verdianas, que sustentavam uma família que agora é orfã. O facto de serem cabo-verdianas provavelmente seria relevante nos comentários de café se estas tivessem provocado desacatos ou cometido crimes - assim, será menos. Estas coisas são chamadas de "acidentes". A culpa é do perfil da estrada, é dos carros difíceis de controlar, do cansaço. Mesmo quando não morre solteira, as condenações mais veements são por "homicídio por negligência", que, no caso de se assassinar 17 pessoas, dão direito a alguns meses por pessoa, de pena ... suspensa. Com direito a comiseração pela responsável, abraços aos membros da família. Afinal são acidentes, o condutor não tem culpa. Responsáveis políticos, também não os há, o caso extremo é o Jorge Coelho, responsável político pela tragédia da ponte de Entre-os-Rios, que se demitiu em sequência dela, e que está agora aos comandos da empresa de construção (de pontes e estradas) que mais contratos ganha do Governo. Portugal é o país com mais crianças atropeladas na UE (destacado, o dobro da grécia, o segundo classificado) e nem por isso se fala muito no assunto.

A diferença entre peão/utilizador de transportes públicos e automobilista é uma diferença de classe, uma diferença de realidade, e todos sabemos em que classe estão os governantes, sob os óculos de que classe vêem o mundo, para que classe governam, e a importância que dão à vida dos escravos.

Conduzir é uma questão de classe.

Publicado por [R-Type] às março 7, 2010 05:36 PM

Comentários

Essa história do jornal do fundão é inacreditável: matou 17 pessoas e leva 4 anos de pena suspensa?!

Quanto à PSP, não te parece que um aumento da repressão pode levar a um aumento da conterstação? Pelo menos neste caso até vinha a calhar.
Ando a amadurecer a ideia de começar a enfiar Supercola 3 dentro das fechaduras dos carros estacionados em cima do passeio.

Publicado por [renegade] às março 7, 2010 11:23 PM

mas só bm's, mercedes e coisas dessas hã? vê lá, o meu latinhas é popularucho e eu nem sempre tenho guito para os estacionamentos.

Publicado por [Anónimo] às março 8, 2010 02:46 AM

Caro anónimo: o teu latinhas é popularucho, mas não te levantas às 4 da manhã no barreiro para ires lavar casas de banho no saldanha, pois não? Se tens um 'latinhas' nota que fazes parte dos 30% previligiados da grande lisboa que têm carro. Algo para que tento chamar a atenção neste post é para a falacia de que todos têm acesso a um automóvel. É semelhante à estória da menina de cascais que fez uma composição de como era ser pobre ' lá em casa somos todos pobres, os pais são pobres, o jardineiro é pobre, a cozinheira é pobre...'. Na tua composição ' em portugal os ricos conduzem bõlides e os pobres conduzem latinhas'. Mas não é assim. E se fossem 100%, que cidade os comportaria? Nenhum país ou cidade, nenhum país consegue suportar urbanísticamente taxas de motorização muito maiores que 60% e quanto maior é está taxa, mais espaço urbano é dedicado a ela e mais miserável é a vida dos excluídos dela. Planear e pensar para uma mobilidade automovel é planear para a desigualdade.

Publicado por [R-TYPE] às março 8, 2010 03:17 PM

Totalmente de acordo com o post.

R-Type, o teu último comentário está certo, mas evidentemente não há solução: 'construir a custos controlados' no Saldanha de modo a que as senhoras cabo-verdianas deixem de viver no Barreiro? tirar os escritórios do Saldanha e levá-los para o Barreiro? fazer desaparecer os bancos e multinacionais que atafulham o Saldanha? bicicletar os Administradores de empresas?

Publicado por [xica] às março 8, 2010 04:52 PM

Xica, pode começar-se por reverter o alargamento das estradas, a transformação das praças e jardins em parques de estacionamento, o perfilamento da rua em via. Há poucas coisas mais egualitárias que uma fila de trânsito congestionado.

As casas do Saldanha não são caras por não serem feitas a custos controlados, são caras por serem no Saldanha, uma zona de grande concentração de emprego.

A concentração de escritórios/empregos no Saldanha só se dá por causa deste perfil de cidade feito à escala do automóvel. Uma cidade menos pensada para o automóvel mistura muito mais zona de habitação com zona de emprego e tende a concentrar menos as coisas. Este paradigma "zona residencial"-"zona habitacional"-"centro-subúrbio" não sobreviveria sem o automóvel (e a rede de transportes públicos a complementar).

Repara: no Saldanha (e agora na Expo) concentram-se empregos por causa dos bons acessos automóveis (e dos transportes públicos que os complementam) que permitem que pessoas que moram desde Alfragide à baixa da banheira se desloquem lá para trabalhar. Corta estas comunicações e verás decerto mais empregos na baixa da banheira, como verás mais gente a ir morar para Moscavide.

Aproveito para dizer que não era minha intenção propôr soluções, (que não tenho a certeza se seriam eficazes a reverter o que já está feito) mas sim dar conta da merda que continua sendo feita.

E já agora desculpa lá a resposta meio atabalhoada

Publicado por [R-Type] às março 8, 2010 08:13 PM

Não posso deixar de me arrepiar cada vez que me lembro deste lamentável episódio. Esta senhora passou por mim, imediatamente antes de se aproximarem as obras que naquela altura estavam a decorrer no Terreiro do Paço e posso garantir que o veículo que esta senhora conduzia (Fiat Punto cinzento) me ultrapassou, pela direita, pela via do Bus a uma velocidade indiscritível, mas concerteza a mais de 100km/h. Só tive tempo de dar uma guinada para a esquerda para não bater e o carro até estremeceu com a velocidade. Eu parei no semáforo, que estava vermelho, ela seguiu (àquela velocidade também era impossível imobilizar o veículo) e não quis acreditar no cenário que vi, digno de um verdadeiro filme de TERROR! Comecei a ver várias peças do carro espalhadas pelo chão e ainda passei por umas pernas... Nunca mais estas imagens me vão sair da cabeça.

Publicado por [Anónimo] às março 9, 2010 12:40 AM

R-Type, não estava a criticar o post. Sou é pessimista quanto às soluções 'light', e não creio possivel uma solução 'hard'. No fundo é isso. Pensa no Bairro Alto: teoricamente, porque não haveria tascas e cafés de fumadores em toda a Lisboa? Mas a verdade é que houve aqui uma concentração, e um esvaziamento do resto da cidade. E essa concentração atrai os 'hosteis' e os 'hoteis de charme' e os restaurantes de ricos. Embora não vejamos isso, nós os que andamos no Bairro, é um outro Saldanha. Ok, sem carros 'topo de gama', pelo menos no que me diz respeito.

A urbanização é inacreditavelmente irreversível, com ou sem discursos do Comité Invisível.

Aliás este blog reflecte bem isso, para quem o lê de fora como eu.

Publicado por [xica] às março 9, 2010 02:09 AM

xica,

discursos do comité invisível?

Publicado por [Chuckie Egg] às março 9, 2010 10:11 AM

Xíca, há que esclarecer as diferenças entre urbanização e gentrificação/suburbanização, e subjugaçao da cidade à sua componente útil/produtiva: bairro alto serve para beber, baixa da banheira./lapa para morar, saldanha e expo para trabalhar, etc. Sem dúvida que as ciclovias e pedonalizacoés de centro histórico,servem, a par dos transportes públicos e das circulares e túneis, o mesmo propósito de divisão da cidade por componentes úteis. Esta externalização dos custos de acessibilidade/mobilidade para os trabalhadores é uma manobra do capitalismo como outras. Agora é importante ver que a cidade não é necessariamente gentrificada/suburbanizada, etc. Tens bons exemplos em lisboa, zona da mouraria, ou em cidades que, por exemplo, não têm centros comerciais, como viena.(nota que não estou a dizer que viena não é suburbanizada, mas tão-somente que é menos do que outras). Por fim, mantenho que só a cidade à escala do automóvel permite este grau extremo de desagregação/redução da cidade à sua componente utilitária.

Publicado por [R-type] às março 9, 2010 11:50 AM

Xíca, há que esclarecer as diferenças entre urbanização e gentrificação/suburbanização, e subjugaçao da cidade à sua componente útil/produtiva: bairro alto serve para beber, baixa da banheira./lapa para morar, saldanha e expo para trabalhar, etc. Sem dúvida que as ciclovias e pedonalizacoés de centro histórico,servem, a par dos transportes públicos e das circulares e túneis, o mesmo propósito de divisão da cidade por componentes úteis. Esta externalização dos custos de acessibilidade/mobilidade para os trabalhadores é uma manobra do capitalismo como outras. Agora é importante ver que a cidade não é necessariamente gentrificada/suburbanizada, etc. Tens bons exemplos em lisboa, zona da mouraria, ou em cidades que, por exemplo, não têm centros comerciais, como viena.(nota que não estou a dizer que viena não é suburbanizada, mas tão-somente que é menos do que outras). Por fim, mantenho que só a cidade à escala do automóvel permite este grau extremo de desagregação/redução da cidade à sua componente utilitária.

Publicado por [R-type] às março 9, 2010 11:52 AM

Chuckie egg, não é Comité Invisivel o nome? Desculpa, referi de memória (vocês têm isso aqui algures mas não tive paciencia para procurar)
Falo dos autores do 'Appel' e de um texto cuja edição portuguesa também aqui foi anunciada há uns dias - o Appel é o texto mais espantoso que alguém escreveu desde os versos da 'usura' do Ezra Pound.

Publicado por [xica] às março 9, 2010 05:10 PM

R-Type, ok :)

Tudo contra os automóveis, certo (a proposito, inacreditáveis as filas à noite no Bairro/Chiado! levar carro para beber e tentar estacionar no Camões já é do foro psiquiátrico - mas essa é a grande 'manobra do capitalismo').

A zona das "avenidas", Saldanha e já agora os terrenos da Feira Popular, foram planeadas desde o início para o trânsito automóvel - desde a construção da 'Rotunda' (Marquês). Não se tratava, como em Paris com os boulevards do séc. XIX, de demolir velhos bairros operários e 'communards' para a ostentação da burguesia e também para facilitar as cargas de cavalaria da Guarda - em Lisboa, esses terrenos eram descampados, Olivais e Benfica eram aldeias à parte e nem sequer faziam parte de Lisboa-município, tal como Belém, etc. Também não foram pensadas propriamente para serviços - eram o acesso fácil às moradias e prédios burgueses e às grandes construções públicas da periferia - aeroporto, hospital Santa Maria, 'cidade universitária'... Nessa altura, as 'pessoas' ainda viviam na 'Baixa' e os proletários-imigrados em bairros de lata, as 'Senhoras' tomavam chá e iam ao Teatro no Chiado e iam de comboio ao Estoril, sem ser incomodadas por 'pretos'. Nos Bairros, organizavam-se as "marchas populares" (desde 1937) e nasciam miúdos fadistas. Tudo corria bem.

Hoje temos o que temos.

Não consigo distinguir a gentrificação do urbanismo 'utilitário', da 'civilização automóvel', da fetichização (?) da 'potência' dos BMW, da degradação das casas dos bairros históricos, da corrupção imobiliária, da queda das empresas pequeno burguesas tipo mercearia de bairro e escritorios com dois ou três guarda-livros parecidos com o Fernando Pessoa, da transformação de Lisboa numa cidade-metrópole onde vive uma quarta parte da população de um país desertificado, do colapso do 'arrabalde' de Sintra Oeiras e Loures, etc etc. Não digo que não sejam coisas de que os urbanistas e sociólogos não possam falar e propor soluções; Não digo que não seja necessário resistir nas pequenas coisas, que são as simbólicas; não digo que não devamos continuar realmente vivos, e por isso 'comunistas que sonham com o anarquismo' ou como é a frase. Seja o que for que isso queira dizer.

Talvez devamos, aqueles que souberem como e tiverem dinheiro para isso, continuar o que o Sá Fernandes fazia, embargar e protestar em tribunal, e ao mesmo tempo comprar Supercola 3 como diz Renegade e uma bicicleta como já me ordenou o Saboteur. E ir às manifs e não votar (?) e ficar feliz por existirem o Gaia ou não sei que tendência dentro de não sei que partidos de esquerda, e beber e fumar e tantas outras coisas. Fazer tudo como se tudo dependesse da mais pequena decisão 'política' (leia-se 'dos políticos') ou de um tribunal e fazer tudo como o requer a guerra civil.

Mas não acordaremos os hipnotizados (não sei se isto pode ser dito assim: não há como esperar que se manifeste uma consciência de classe). Estamos por nossa conta.

Os 'óculos' como dizes no post são visores de realidade virtual. Se fossem os velhos óculos burgueses, eram de vidro e partiam-se com uma pedrada bem certeira.

Desculpa o tamanho da resposta.

Publicado por [xica] às março 9, 2010 06:08 PM

xica,

embora não se saiba se os autores são ou não os mesmos o que eu queria dizer é que o comité invisível não afirma que a urbanização é reversível, apenas enuncia um determinado número de problemas e depois algumas propostas. continua a aparecer por cá e depois do livro estar pronto vamos discutir tudo isso e muito mais.

O Appel é de facto o melhor poema comunista dos últimos 20 anos mas ir até ao Ezra Pound (esse faxo!!) é esticar a corda (tenho ideia que esse é do início do século, altura do gramsci). Por outro lado, ainda hoje e depois de termos traduzido, lido e relido o livro ad nauseam, continuamos a ter dificuldade em saber se aquilo é prosa ou pura poesia.

Abraço,
Chuckie Egg

Publicado por [Chuckie Egg] às março 10, 2010 03:14 PM

Fico à espera.

De resto - não deveremos nós, os vivos, esticar todas as cordas? Ia dizer e dançar sobre elas, mas o Nietzsche também é um faxo ;)

Abraço

Publicado por [xica] às março 10, 2010 08:21 PM

Punheteir@s!

Publicado por [Anónimo] às março 10, 2010 11:28 PM

I don't know who you wrote this for but you hepeld a brother out.

Publicado por [Honey] às setembro 30, 2011 09:20 AM

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Publicado por [gljswh] às outubro 3, 2011 12:32 PM

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