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março 13, 2010
A política para lá dos pecs

Há meses, uma boa parte da blogosfera esquerdalha envolveu-se em fortes discussões sobre a liberdade de expressão. De um lado, vilipendiada em nome da conquista e manutenção de um poder «revolucionário». De outro, adorada em abstracto, como se fosse um deus.
Se a liberdade de expressão constitui um elemento essencial de qualquer dinâmica democrática (dinâmica, nunca regime), não deve, contudo, assumir a mera forma de declaração, sem qualquer consequência.
Recordando um dos colectivos que colocou a questão de uma forma particularmente certeira, “O liberalismo erigiu como princípio que tudo deveria ser tolerado, que tudo pode ser pensado, desde que não tenha consequências directas na estrutura da sociedade, nas suas instituições e no poder de Estado”.
Ou seja, por mais que seja importante viver numa sociedade que me permita gritar “Basta!”, penso que a democracia, pelo menos se nos quisermos reportar à etimologia da palavra, significa um colocar em prática deste mesmo “Basta!”. Num movimento que se deve demonstrar tão inteligente, quanto intransigente, tão assente em princípios, quanto ciente do terreno que pisa. Deste ponto de vista, reivindicações como o aumento de salários devem ser encaradas, não segundo uma perspectiva meramente humanista, mas enquanto parte de uma estratégia que visa retirar terreno ao inimigo, passo a passo. No entanto, para que a prática deste “Basta” mantenha o seu dinamismo, com todas as características que lhe estão associadas – descentralização, movimento, multiplicidade – é necessário que não se deixe encerrar por forças que (cada vez mais) representam o seu contrário. Não se trata de assumir uma posição de «virgem puro», escravo de um dever moral, mas sim de reflectir sobre cada passo que se dá, sujeitando-o a uma simples, mas difícil pergunta: «Até que ponto é que nos apercebemos dos desvios que fazemos?».
Publicado por [Dallas] às março 13, 2010 09:24 PM
Comentários
Qualquer ocasião serve para citar o appel aqui. Passem logo para aqui o documento todo e escusam de se dar ao trabalho.
Publicado por [Jonas] às março 14, 2010 11:23 AM
Para quê? Basta seguir o link...
Publicado por [Dallas] às março 14, 2010 05:16 PM
um ganda like!
Publicado por [stipouff] às março 14, 2010 06:56 PM
Por acaso acho que a vitória do Benfica na choupana (comparável à goleada da fcsh à Católica) é uma boa ocasião para citar o appel. Cá vai:
"Em todo o lado onde reina a concepção clássica da política, reina a mesma impunidade face ao desastre. E nada muda pelo facto desta impunidade ser repartida por uma vasta distribuição de identidades finalmente conciliáveis entre si. O anarquista da FA, o comunista de conselhos, o troskista da ATTAC e o deputado da UMP partem de uma mesma amputação. Propagam o mesmo deserto."
Publicado por [Rick Dangerous] às março 14, 2010 08:06 PM
... mas perde na tradução - o Appel, claro :)
De resto, a "liberdade de expressão" encerra em si uma série de armadilhas, sim. Curiosamente, quando o conceito apareceu (séc.XVIII, e em Inglaterra, não na França pré-revolucionária), ainda se não tinha alargado a ideia de 'expressão' para 'coisas feitas' - isso aparece no Romantismo, com Beethoven por exemplo, e a ideia de que a 'obra de arte' é a 'expressão da alma do artista' - e por conseguinte a obra de arquitectura, por exemplo, é uma forma da 'liberdade de expressão': um bom argumento para os construtores de arranha-céus ou de centros comerciais...
Depois, já no principio do séc. XX, percebeu-se (em Inglaterra outra vez) que 'you do things with words' e em França, já com a geração do Sartre, Foucault, etc, que há um dizer (ou um silêncio) em tudo aquilo que se faz ou não faz. Coisas como o 'insulto' ou a 'frase de ódio' (p.ex. nazi) ganharam outra dimensão (até aí, só tinham a da ofensa da 'honra' burguesa...)
Era interessante chamar a atenção (teoricamente) para a liberdade de impressão, de impressionar o mundo, de deixar no mundo e nas coisas do mundo a marca que seja a marca da totalidade uma pessoa - é a diferença entre a obra do artista e do artesão e a obra da máquina-mercadoria, perfeitissima e impessoalíssima. É isso que é retirado pelo capitalismo: ao proletariado, no sentido em que dele no séc. XIX podiam falar os comunistas, e agora a todos - 'burgueses' inclusive, reduzidos a uma lumpen-burguesia de que falam também alguns 'colectivos'. É dessa retirada que cresce e se alimenta o deserto.
Como passar dessa impressão para a revolução, para a revolução que seja uma dinãmica e não um regime como se diz no post, seria a discussão seguinte, e é aí que me perco um pouco.
Publicado por [xica] às março 15, 2010 07:23 PM
... claro que essa 'marca deixada no mundo' passa perigosamente perto da tentação titânica (é a palavra que a direita usa) ou psicopática (expressão mais técnica) do 'super-homem', do 'caudilho', do 'herói' e de outras fascistadas do género. Aqui, ou a partir daqui, acho que as feminist theories e a consciencia política da dimensão 'gaiana' das coisas são importantes. Não sei se é esta a ultrapassagem da 'dimensão clássica da política'.
Publicado por [xica] às março 15, 2010 07:33 PM
I can't hear anything over the sound of how aeowmse this article is.
Publicado por [Gatsy] às setembro 30, 2011 05:01 PM
PqEN45 smxvjmekzkqd
Publicado por [plkefjlsrzh] às outubro 3, 2011 12:59 PM
