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fevereiro 26, 2010

Um novo reduto do machismo


A propósito disto e disto, fico contente por ler isto. E finalmente, um texto feminista que não teme enfrentar o acidentado terreno da sexualização do corpo feminino. A propósito do tema, alguém sugeriu uma teoria da jovem rapariga.
"Como mulher e feminista, ofende-me o conceito de que tudo o que tem a ver com sexo é do interesse masculino, ergo mulheres retratadas em situações sexuais estarão apenas a ser usadas pelos homens. Mostrar o corpo feminino como algo de belo e desejável, só pode parecer mal a quem tem saudades de outros tempos, dos tempos do recato e do controlo público sobre as mulheres. Dos tempos em que mulheres que mostravam (ou usavam) o corpo não mereciam respeito. Em que uma mulher publicamente sexualizada era uma mulher, de alguma forma, menor. Este discurso parece-me errado, do ponto de vista feminista, em toda a linha.
Em primeiro lugar, reproduz esta noção da mulher como objecto passivo e desinteressado da sexualidade. Depois, sustenta que a imagem pública do corpo feminino deve ser objecto de um controlo específico, deve ser limitada por outra coisa que não a livre vontade das próprias mulheres. Mantém a ideia de censura – e nenhum discurso que se queira ligado a valores de libertação, seja o feminismo ou outro qualquer, se pode basear num conceito próprio de quem se vê como regulador iluminado da vida dos outros.
Este feminismo de tendência conservadora é o mesmo que, mais ou menos com os mesmos argumentos, advoga a proibição da pornografia e da prostituição. Tal como na publicidade ou na moda, as mulheres que trabalham nestas profissões (ao contrário dos homens?) estariam a ser exploradas, as suas escolhas seriam inválidas, pouco livres e mal informadas. Eu, por outro lado, acredito que como em qualquer profissão as pessoas têm é que ter escolha e que ter direitos.
Se falamos de feminismo e de estereótipos, eu diria que todos os estereótipos que constituem o pior do machismo estão aqui. A mulher que só por vontade do homem se mostra e se sexualiza, sendo necessariamente nisso uma vítima. A mulher que não sabe gerir a sua própria imagem e o seu próprio corpo, que precisa de proibições que a defendam. E o conceito de que uma mulher que mostra publicamente nudez ou, pior, desejo sexual, se vê degradada. Se as pessoas têm direito a não gostar deste tipo de imagens? A aplicar aqui o tal direito ao protesto e ao boicote? Com certeza. Aqui como em tudo. Não podem é dizer que o fazem pelas mulheres e pelo feminismo. Algumas de nós, mulheres e feministas, acreditamos que estes protestos são um novo reduto do machismo, uma espécie de lobo disfarçado de cão-pastor. E estamos fartas de ser cordeiros."

fuckitall, do saudoso womenage a trois

Publicado por [Rick Dangerous] às fevereiro 26, 2010 02:54 PM

Comentários

Não podia estar mais de acordo com a ideia de que "nenhum discurso que se queira ligado a valores de libertação, seja o feminismo ou outro qualquer, se pode basear num conceito próprio de quem se vê como regulador iluminado da vida dos outros". E acho que é preciso lembrar isso a muito activista que anda por aí.

Publicado por [BB] às fevereiro 26, 2010 03:26 PM

eu acho que, embora o tiro seja dado com convicçao, falha redundantemente o alvo. A discussao que tenho vindo a acompanhar nao tem nada a ver com a exposiçao do corpo feminino (do qual sou apreciador, confesso). A questao central prende-se com a (re)afirmaçao dos papeis sociais de homem e mulher na sociedade, o que eu condeno nao é a quantidade de roupa, mas a qualidade das personagens femininas que sao apresentadas como seres submisssos e disponiveis para servir. Nao é a sexualidade que é o problema, é a subserviencia...

Publicado por [rafael] às fevereiro 26, 2010 08:12 PM

Caro Rafael (Arquitectura do Porto, certo? Acho que me lembro de ti do partido e das AE's)acho que o teu tiro é que está a falhar o alvo. Vejo uma mulher de roupão e não penso nela - pelo menos não necessariamente - como um ser submisso e disponível para servir. Aliás, quando vejo uma mulher naquela pose (de braços nas ancas) submissa é a última coisa que me lembro de lhe chamar.
Como pergunta a camarada shyznogud: "Um apelo fortemente sexualizado é forçosamente sexista porquê? O trocadilho de abertura fácil, referindo-se ao roupão e à garrafa, choca quem e porquê?Se alguém me conseguir explicar racionalmente o porquê da fúria, sem cair nos automatismos fáceis (tipo "vêem-se mamas, oh tragédia, o corpo feminino é usado"), agradecia."
Na minha opinião, a única coisa que pode ser considerada sexista é o facto do anúncio se dirigir explicitamente a pessoas que gostam de mamas, partindo do princípio que são sobretudo os homens que gostam de cerveja preta. Mas lá está, há mulheres não pouco feministas que gostam muito de mamas.
Estas coisas do desejo e da libido são muito mais complicadas do que parecem.

Publicado por [Rick Dangerous] às fevereiro 26, 2010 08:29 PM

Rick [bonequinho preto e amarelo que saltava plataformas e tinha um chicote para matar monstros, é isso? ;)], sim sou eu. Mas o que eu estava a falar mesmo era do anuncio televisivo onde um bando de gajos tá a ver a bola enquanto uma serie de mulheres lhes trazem cerveja. e esse é que era o ponto que eu referia como sexista. Reafirmo, nao me incomoda, até gosto que se mostrem mamas, o que nao suporto é a continuidade dos roleplay sociais. Aquele anuncio com mais roupa (nao sendo isso que está em questao) podia ter sido feito nos anos 40...

Publicado por [rafael] às fevereiro 26, 2010 09:00 PM

a foto tá fixe.
a paris hilton não é devassa, é feiosa e badalhoca.

Publicado por [Anónimo] às fevereiro 26, 2010 10:41 PM

Vocês parecem o Diácono Remédios, eh eh eh, a ver quem é mais moralista...

Publicado por [Paulo] às fevereiro 27, 2010 12:38 AM

Pois eu acho que necessitamos mais fotos destas no nosso blog

Publicado por [Saboteur] às fevereiro 27, 2010 10:55 AM

Fiquei envergonhada, será que não sou moralista? saboteur, mais fotos dessas sim por favor. E, Rick, gracias pela Jeune Fille.

Alguém especialista na história das palavras devia explicar de onde nasceram 'violação' e 'devassa' e fazer a critica politica dessa história (estou a ficar demasiado intelectual, mas é o que acho) - violam-se corpos e direitos, devassa é o 'mau comportamento' e o inquérito policial. Demasiado público/privado, geral/íntimo para o meu gosto.

Publicado por [xica] às fevereiro 27, 2010 07:17 PM

Fiquei envergonhada, será que não sou moralista? saboteur, mais fotos dessas sim por favor. E, Rick, gracias pela Jeune Fille.

Alguém especialista na história das palavras devia explicar de onde nasceram 'violação' e 'devassa' e fazer a critica politica dessa história (estou a ficar demasiado intelectual, mas é o que acho) - violam-se corpos e direitos, devassa é o 'mau comportamento' e o inquérito policial. Demasiado público/privado, geral/íntimo para o meu gosto.

Publicado por [xica] às fevereiro 27, 2010 07:21 PM

Nos tempos de estudante tive muitos amigos que se queixavam das mulheres à sua volta não serem emancipadas (sexualmente) como eles desejavam. O texto do Rick parece-me ir no mesmo sentido. Misturar feminismo com as necessidades e impulsos sexuais e eróticos de cada um parece-me tão útil como publicar imagens deste género: faz subir o nº de leitor@s, despolitiza e ridiculariza discursos feministas, braqueia o sexismo latente e potenciado ao máximo no nosso pais na publicidade da cerveja (não abri os links, será a Tagus!?!?).

Publicado por [Jó] às fevereiro 28, 2010 10:57 AM

Não vi o anúncio da tv, portanto vou subscrever a preocupação do Rafael. Homens a ver futebol que bebem cerveja trazida pelas mulheres é demasiado óbvio para comentar.
Sempre vigilante camarada Jó. Tenho curiosidade de saber mais acerca do teu feminismo, que pelos vistos fica pela censura do machismo alheio sem entrar pela cama dentro.
Acho que a única coisa que "despolitiza e ridiculariza discursos feministas" é o permanente policiamento do desejo ou a pretensão de que ele não é um terreno político.
Não me queixo por as mulheres à minha volta não serem emancipadas "como eu desejo". Mas constato a facilidade com que muitas «feministas» comentam depreciativamente os comportamentos sexuais de outras mulheres. Abre os links e logo vês.

Publicado por [Rick Dangerous] às fevereiro 28, 2010 04:12 PM

Sim, talvez seja mais fácil reagir do que pensar no que séculos de construção social e política tiveram nos papéis de género. Mas, efectivamente, com escalas diferentes consoante o sítio do mundo, a educação e classe social, continuamos a falar de um mundo onde o corpo da mulher ou não lhe pertence ou passou a pertencer há pouco tempo. No nosso pais a despenalização do aborto tem o tempo que lhe conhecemos. Tendo em conta isto penso que o "campo de batalha" que é o corpo, o desejo e a sexualidade, central na vida e realização da maior parte dos seres humanos,está minado com esta "desvantagem" de partida. Não só para uma mulher mas para um homem, já sobre ele também pende uma construção social. "Vais à tropa para seres um homenzinho", ou outro tipo de rituais iniciáticos nalgumas comunidades/culturas. Conhecendo alguns pela antropologia é de morrer de medo!São brutais e não andam com os nossos subterfúgios.
Há cerca de 30 anos que uma mulher divorciada era tida,na nossa sociedade, por algo não muito diferente que uma mulher da vida, tratada assim em múltiplos contextos (claro que estamos a falar da generalidade) e existem muitos testemunhos, infeliz ou felizmente, próximos de nós. Como entrar pela cama adentro sem ter, essencialmente, isto em presença?
Confessso-te que não conheço muito a Paris Hiton mas há mulheres que pela visibilidade que deram a si na sua carreira e a forma como o fizeram fizeram mais pelo feminismo -como a Madona- que muitas marchas da mulher...

Publicado por [Jó] às março 2, 2010 12:43 PM

O terreno está minado, os papéis de género foram construídos social e politicamente ao longo de séculos, há trinta anos as mulheres divorciadas eram votadas ao ostracismo. Tudo isso é verdade mas não nos acorrenta necessariamente a uma posição defensiva, no que à cama diz respeito. Eventualmente, é precisamente porque partimos de uma posição tão recuada que se torna ainda mais urgente uma reflexão sobre os papéis de género que não tenha medo de abordar os fluídos e a sua partilha.
Se não se misturar "o feminismo com as necessidades e impulsos sexuais e eróticos de cada um" então está-se a lutar por um feminismo à imagem da Margarida Rebelo Pinto.

Publicado por [Rick Dangerous] às março 2, 2010 01:26 PM

Mais que ostracismo viam-se sujeitas ao assedio sexual dos homens que de repenten passavam a querer trocar os seus fluídos com estas mulheres tao radicais. A Margarida Rebelo Pinto é que deve escrever muito sobre fluidos e o grande tema da sua obra, tenho um palpite que será a resolução das suas necessidades e impulsos amorosos/eróticos. Eu sinto-me, em relação à tua proposta de "avançar" na reflexão feminista, como o Marquês de Sade em relação ao contrato social. Querem que eu assine um contrato de igualdade quando a propriedade continua a ser privada?

Publicado por [Anónimo] às março 2, 2010 08:36 PM

Aquel@ anónimo sou eu.

Publicado por [Jó] às março 2, 2010 08:37 PM

Acho que o grande tema da obra de Margarida Rebelo Pinto é explorar até à náusea todas as representações do «feminino» que tornam as mulheres «tão» diferentes dos homens. A velha lenga lenga de que elas procuram afecto e eles procuram prazer, e assim sucessivamente. Mas não sou um leitor muito atento, confesso. Ouvi dizer.
Faço-te notar que os meus pais nunca casaram, o que por poucos anos quase fez de mim um filho ilegítimo. Acho que sei qualquer coisa acerca da perspectiva de uma mãe solteira há 30 anos, que como deves imaginar não era propriamente melhor do que a de uma mulher divorciada.
Mas sinto que o teu entendimento destes temas parte do princípio de que todas as mulheres do mundo estão em melhor posição para perceber a situação de uma mulher divorciada do que qualquer homem que a conheça pessoalmente e partilhe a sua vida com ela. Quando escreves, pareces invocar em auxílio das tuas opiniões o facto de tu teres uma vagina e eu não. Bem sei que é tentador. Mas continuará a ser verdade que existem experiências de opressão sobre mulheres que eu conheço melhor do que tu, porque conheço essas mulheres, que são pessoas concretas e não uma imagem heróica e glorificada das «mulheres oprimidas, humilhadas» que serve para quase tudo menos, na minha modesta opinião, para combater o patriarcado.
Achas sexista a imagem deste post, ou que ela "despolitiza e ridiculariza discursos feministas, braqueia o sexismo latente", mas nada escreveste que sustentasse essa afirmação e já falaste das mulheres divorciadas há 30 anos, do Marquês de Sade e dos amigos que tinhas na faculdade.
Se o campo de batalha está minado, porque é que seria uma boa opção ficar lá acampado?

Publicado por [Rick Dangerous] às março 3, 2010 07:42 PM

Repara que o Marquês de Sade tinha propriedades. Não era um desapossado da terra a reclamar o fim da propriedade. Da mesma forma as pessoas que conheci mais feministas foram homens. Isso não quer dizer que para acabar com a necessidade de haver feminismos não tenham de ser as mulheres a assumir essa igualdade. E não me ouviste esgrimir a minha qualidade de gaja na discussão. Talvez esse argumento tenha vindo ter contigo por necessária reflexão. Quando eu falo em mulheres oprimidas não estou a dar-te lições nenhumas. Estou a colocar em contexto, a seguir ou apoiar um raciocínio. Claro que não posso deixar a vagina em casa, nem acho que deva fazê-lo.
Esta imagem, em que há duas mulheres que não são sujeitas da sua história, que reflectem descaradamente o tipo de imagem associado à mulher que tao bem descreveste em relação à Margarida Rebelo Pinto,uma imagem que as torna objecto, tem o mesmo significado que tinha colocar a imagem de um negro a vender cafés na publicidade norte-americana no tempo da escravatura. Ou seja, se temos um campo minado, que há pessoas que não sao -ou não podem ser plenamente- donas do seu corpo e da sua sexualidade - que significado dás à utilização de uma imagem desse mesmo tipo de mulheres? Que perpetua ou prolonga a categoria de objecto associado à mulher.
Está sustentada a minha afirmação?

Publicado por [Jó] às março 9, 2010 08:35 PM

O facto de elas serem objectos de desejo não as torna menos sujeitas da sua história. Não me parece nada automático que a realidade siga o teu raciocínio.
Nós não sabemos que tipo de poder têm elas sobre o seu corpo e a sua sexualidade. E é essa a crítica mais interessante que se pode fazer deste tipo de fotografias em que o corpo (masculino ou feminino) é estetizado e de onde é evacuada a realidade. Mas essa é uma crítica genérica ao regime de imagem em que vivemos, e não concretamente aos valores veiculados por cada uma das imagens que consumimos. No caso desta em concreto, vejo duas mulheres que correspondem a um padrão de beleza canónico em pleno acto sexual. E isso não é, em si mesmo, machista. Não mais do que se elas fosse gordas e peludas ou estivessem vestidas da cabeça aos pés a tricotar. Não me parece que o sexismo fique mais branco ou mais preto, nem que o feminismo fique mais ou menos politizado em função de imagens como esta. A não ser, é claro, que nos coloquemos na posição de avaliar «objectivamente» quem é ou não sujeito da sua própria história em função da percentagem de corpo que revela numa fotografia.

Publicado por [Rick Dangerous] às março 11, 2010 04:27 PM

Rick, tenho dúvidas de que se possa evacuar a realidade de qualquer imagem ou representação. Mas entendo o que dizes. Ou o que queres dizer. O facto de elas serem objecto de desejo não as torna menos sujeitas da sua história a não ser que elas sejam objecto de desejo que não o delas próprias.
Onde vês imagem canónica de beleza eu vejo estereótipo de imagem construída a que deve corresponder a beleza da mulher. Essa construção não foi feita por mulheres. Pelo menos por mulheres livres dos constrangimentos sociais que sobre elas pendem (penderam) e que se prolongam na imagem sexual. Posso ver enviesadamente? Sim. Posso ver de forma preconceituosa?Sim.
Estamos condicionados na construção (como n pode ser tb?) dos nossos desejos e impulsos sexuais pelas imagens e cultura predominante (canónica)? Sim.

Publicado por [Jó] às março 13, 2010 02:06 PM

It's spkooy how clever some ppl are. Thanks!

Publicado por [Carli] às maio 25, 2011 07:46 PM

Touchdown! That's a relaly cool way of putting it!

Publicado por [Beatrice] às maio 26, 2011 02:52 PM

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