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fevereiro 09, 2010
Filósofos de couscous !

Vi-me ontem metida num verdadeiro enredo cinematográfico típico de um filme francês dos anos 80. O discurso narrativo baseou-se por um lado na nostalgia espaço-temporal do glamour parisiense dos magníficos e seculares anfiteatros da Sorbonne e, por outro, nas práticas boémias de jovens insubmissos à ordem escolar dominante da República Francesa.
Encontramo-nos a três nos “bons amis” para comer um couscous. Restaurante aqui do bairro, conhecido tanto pela boa relação qualidade – preço do cardápio como pela possibilidade de acompanhar o couscous com um vinho argelino.
A dinâmica da conversa entre os três esperou a chegada tardiva do couscous para extravasar as trivialidades da vida. Foi na troca de informações sobre a formação política de cada um que se deu o primeiro pontapé de discórdia. Enquanto que uma cresceu politicamente nos grupos situacionistas próximos de Debord, o outro abriu a sua curiosidade e sensibilidade política na educação nacional francesa. Quanto a mim, auto proclamei-me observadora estrangeira.
Enquanto que a situacionista atacava os professores que a castraram durante todo o seu percurso escolar, o laico afirmava que a descoberta de autores como Rousseau e Marx se fez através de determinados professores que o souberam estimular intelectualmente. Lembrou-se por exemplo do seu primeiro ano de faculdade onde fizera parte da organização de uma greve de estudantes para protestar contra a Guerra do Golfo (e nao e!) (1990-91)). Num dos anfiteatros da Sorbonne o professor de teorias políticas, conhecido pela sua eloquência, foi obrigado a mudar o programa da aula sob a pressão dos estudantes. E foi assim, que este professor conseguiu explicar através de poli-silogismos e das teorias de Hegel e Marx que a guerra afinal era justificada. Ainda que frustrados pelas conclusões, os estudantes foram marcados pela demonstração brilhante dos mecanismos da lógica discursiva.
Passou-se a seguir à questão do judaísmo. Por coincidência ou não os meus dois companheiros têm um lado da família asquenazi e um outro sefradita. Embora tanto um como o outro não se identifiquem como judeus, a história encarregou-se de os remeter a essa categoria, nomeadamente na época coeva com a ascensão do fascismo e do sionismo. Este é um ponto sobre o qual estavam os dois de acordo.
O laico começou-se a questionar sobre esta identificação ou falta dela quando, nesta mesma escola republicana, os professores ao leccionarem Marx ou Durkheim sublinhavam antes de tudo a sua origem judia. Jà quando se tratava de autores de cultura católica ou protestante esta vertente era simplesmente ignorada. Tentei refutar, mas sem sucesso, dizendo que acabara de ler uma biografia de Auguste Comte cuja primeira caracteristica avançada era o facto de ser um autor educado numa família extremamente católica. Ora aí está, o adjectivo extremamente faz toda a diferença! Talvez por isso a sua obsessão pela cientificidade pura e dura da sociologia – a rainha de todas as ciências!

Na mesa do lado, três jovens bonitos, hirsutos estilizados, também eles saídos de certeza da calçada da Sorbonne, falavam sobre Pessoa e da intranquilidade. Rapidamente mudaram a conversa para Kant.
Na nossa mesa, do judaísmo passou-se a Walter Benjamin. A situacionista tentara convencer o laico a ler alguns textos políticos deste autor. O laico, embora conhecedor e apreciador da escola de Franquefurte, recusou-se a ler Benjamin lançando apenas como argumento que o estilo prosaico deste autor não o convence e que para além disso não aprende nada de novo. A situacionista, não aceitando esta recusa cega e pretensiosa tentou desenvolver o que de Benjamin tinha apreendido. Para tal discorre sobre os exemplos metafóricos que o autor utiliza, relacionados com o seu materialismo histórico. O laico diz que esses exemplos místicos "Benjaminianos" enervam qualquer ser: ou se é materialista histórico ou místico. Eu dou a minha achega, dizendo que Bachelard com a sua fase diurna e nocturna, conseguiu conciliar o espírito cientifico e a metafisica poética, um e outro momento promovem-se mutuamente. O laico recusa-se a entrar numa lógica de troca de argumentos construtiva, não deixando a situacionaista desenvolver a sua contemplação actual pelas teorias "Benjaminianas".
A discussão na mesa do lado começa a estar acesa, agora sobre a percepção da obra de arte, enquanto que na nossa mesa deixou-se o conteúdo de lado para se falar na forma do debate. O laico dá o exemplo de um conflito argumentativo entre um crente e um descrente, sobre a existência ou não de Deus com o objectivo de justificar a sua postura argumentativa. Sem mãos na coisa, já estávamos ali numa lógica conflitual de género. A forma de argumentar do macho é desconstrutiva e a da fêmea construtiva. Quando a fêmea não se deixa instruir passivamente, o macho torna-se agressivo e inapto à troca de informações.
A discórdia instalou-se nas duas mesas, os ânimos estavam exaltados, o patrão do restaurante faz-nos impaciente um gesto que mostrava que era hora do adeus. A situacionista leva-nos a casa de carro. Uma hora depois, ainda com o laico, recebemos um sms da situacionista que dizia: “Não nos compreendemos, nada a fazer. Entretanto é a revolução que mais uma vez é adiada”. O laico responde: “Esse teu Benjamin, não será um pouco judeu?”.
Ao patrão do restaurante deixaria um comentário no livro de reclamações: meter uma placa na entrada a dizer “Proibido filosofar sem método nem conteúdo.”
Publicado por [Shift] às fevereiro 9, 2010 11:16 PM
Comentários
não costumo comentar lapsos gramaticais em posts de blogues (a todos nos foge a tecla uma ou outra vez), mas "Guerra do Golfe" é muito bom.
Publicado por [putter] às fevereiro 10, 2010 04:23 PM
Boa!
Publicado por [Anónimo] às fevereiro 11, 2010 08:59 AM
ih ih
Publicado por [stipouff] às fevereiro 11, 2010 09:24 AM
