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junho 30, 2009

um langor mórbido e grotesco

Artur caminhava triste: sentia a névoa prender-se-lhe ao bigode, às pestanas, amolecer-lhe a goma do colarinho, e toda aquela humidade depositar-se-lhe na alma. Cheio de tédio, sentindo-se mais só nas ruas vazias
de onde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espírito com genebra, rolar-se no deboche. Voltou ao Rossio: entrou num pequeno café, onde a cor suja da parede, o soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz dos bicos tristes de gás.
Instalou-se a um canto com a garrafinha de genebra, melancólico, pensando no botequim da Corcovada que, agora, lhe parecia mais confortável, mais amável do que tudo quanto encontrara em Lisboa, com a simpatia verbosa do Rabecaz, o lume a estalar do outro lado do tabique na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no bilhar.
Um pigarro pertinaz, numa mesa ao lado, fê-lo reparar num sujeito que tomava um cabaz: pequeno e grosso, trazia um xaile-manta aos ombros e a face redonda, barbeada, mole, tinha uma cor lívida de pele de galinha; no seu olhar embaciado havia um langor mórbido e grotesco. Sorriu para Artur, dirigindo-se-lhe com uma voz fina.
- Má noite!
- Muito má!
O indivíduo imediatamente arrastou-se pela banqueta de palhinha até junto de Artur, com um movimento derreado dos quadris, os olhos revirados numa ternura chorosa:
- É servidinho de um cabaz?
Artur recusou. Aquela proximidade do velho embaraçava-o: o indivíduo tinha um não sei quê de pegajoso na pele, um roliço de perna efeminado que repelia, e nos seus olhos, de cor indecisa e que não deixavam Artur, errava uma luxúria turva, equívoca, flácida.
- Então por que não vai um cabazinho? - disse o homem, mais baixo, chegando-se.
Artur, instintivamente, recuou com nojo. O outro teve um movimentozinho de quadris, tocou-lhe no joelho e muito canalhamente:
- Não tenha medo, menino!
Artur compreendeu, ergueu-se e com os punhos cerrados:
- Seu mariola!
- Então, menino, então! - disse o outro tranquilamente.
Artur berrou pelo criado, atirou uma placa para a mesa e saiu furioso.
O nevoeiro cerrava; e Artur, galgando o Chiado, impelido pela indignação, ia murmurando:
- Canalha de cidade!

Eça, A Capital

Umas páginas mais à frente apresenta-nos D. Joana Coutinho, uma lésbica cheia de estilo que "tinha grandes amizades femininas: andava às vezes durante o Inverno inteiro com alguma rapariga que ninguém conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguesia, e que ela trazia a seu lado no landau, instalava no melhor lugar do seu camarote em S. Carlos ou no centro da sua sala, às terças-feiras, cocando-a sempre com os olhos brilhantes, erguendo-se de repente para lhe ir murmurar um segredo, com risinhos quentes, muito zelosa dos seus olhares, dos seus apertos de mão. Depois, no Inverno seguinte, "outra favorita reinava"... (...)
Dizia-se porém que, morto o marido, D. Joana Coutinho se retiraria a um convento - onde o número e a idade das educandas satisfariam amplamante as suas necessidades de ternura feminina"

Publicado por [Renegade] às junho 30, 2009 12:11 AM

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