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junho 18, 2009
Sobre a governabilidade

Aconselho a leitura de um interessante post de Jorge Bateira no Ladrões de Bicicletas. Tem o enorme mérito de introduzir clareza e seriedade no debate. Dizer claramente o que se quer, sem subterfúgios e sem os espartilhos impostos pelo espectáculo eleitoral ou pelos tacticismos partidários, pelo menos torna possível o debate. Discordo radicalmente do que escreve Jorge Bateira, mas ao lê-lo não fico com aquela sensação, tão típica dos períodos de campanha eleitoral, congressos partidários, debates da nação, etc., de que me tomam por parvo. Não quero, aliás, deixar de dizer que essa postura de clareza e seriedade é característica do blogue em causa.
Discordo fundamentalmente da tentativa de encontrar uma espécie de «terceira via» entre uma postura revolucionária e uma opção pela gestão do capitalismo. Se, em geral, essa oposição até faz algum sentido, quando a aplicamos à esquerda partidária (ou seja, a esquerda organizada em torno do objectivo da governabilidade, cujo espaço natural de existência é a política do Estado), ela perde toda a adesão à realidade. Simplesmente porque na esquerda partidária não existe qualquer «postura revolucionária». Toda a esquerda partidária tem na criação de condições de governabilidade o alfa e o ómega da sua actuação. É certo que, por exemplo no caso português, os partidos à esquerda do PS têm dificultado bastante a construção de uma qualquer solução de convergência que permitisse a constituição de um governo com um cunho fortemente de esquerda. Mas isso é verdadeiramente o que essas forças imaginam como o melhor caminho para criarem condições para o seu acesso à governabilidade. Bem ou mal, apostam tudo numa táctica de crescimento próprio que lhes permita aceder a uma posição de força relativa mais favorável em relação às outras forças.
Fui durante 10 anos militante do PCP e são incontáveis as vezes que ouvi algo do género: «O PCP não teria qualquer dificuldade em participar num governo do PS, desde que houvesse uma significativa alteração da correlação de forças favorável ao PCP. Veja-se o exemplo da coligação na Câmara de Lisboa: foi possível porque naquela altura o PCP tinha o dobro da força do PS». É interessante fazer o exercício de comparar este discurso interno com o discurso público que diz que «estamos disponíveis para qualquer solução desde que haja uma ruptura com a política de direita». E é interessante porque é óbvia a contradição entre a autenticidade da estratégia e a falácia da táctica. Como é bom de ver, não há nada de revolucionário (nem de «transformador», para adoptar o termo de Jorge Bateira) nisto.
O problema maior, do meu ponto de vista, é que o principal erro, quer das esquerdas quer de Jorge Bateira, é a suposição de que o acesso à «governabilidade», ou seja, aos mecanismos de poder decorrentes da representatividade, é a chave da transformação social. Ora, a questão é que se é verdade que «os mercados foram criados ao longo da história através de uma intervenção activa do poder político central», também não é menos verdade que o Estado moderno é também ele um conjunto de instrumentos de reprodução da sociedade mercantil. E também não é menos verdade que o capitalismo é muito mais do que o mercado e o Estado, embora os inclua. O capitalismo é essencialmente uma forma de viver. Uma forma total que transforma todos em agentes da mercadoria. E o pior de tudo é que nas actuais condições históricas de bloqueio estrutural do capitalismo (bloqueio dos mecanismos de valorização do valor e de expansão ampliada do capital), essa forma de viver assume uma dimensão quase esquizofrénica: a alternativa absurda com que estamos quotidianamente confrontados é o tédio insuportável da sobrevivência (trabalhar, trabalhar, produzir, produzir) ou o desespero de não conseguir sobreviver (procurar trabalhar, trabalhar, produzir, produzir). Nessa medida, discordo com Jorge Bateira quando escreve que «As lições do chamado “socialismo real” foram aprendidas». Do meu ponto de vista, foram mal aprendidas porque parece ainda não estar claro que a construção de uma forma de viver pós-capitalista vai muito para lá da alteração das relações de propriedade ou da configuração do poder do Estado. O capitalismo, a forma de viver capitalista, convive bem com várias formas de Estado e com várias formas de organização económica. Nesta perspectiva, e mais ainda no actual contexto histórico, a política do Estado não pode ser outra coisa que não pura gestão de uma mesma forma de viver. Creio que o que historicamente está em jogo é a possibilidade (ou não) de ruptura radical com essa forma de viver.
Publicado por [Manic Miner] às junho 18, 2009 04:37 PM
Comentários
"O capitalismo, a forma de viver capitalista, convive bem com várias formas de Estado e com várias formas de organização económica."
É verdade que o capitalismo se dá bem com diferentes formas de organização do poder político. E, seguindo Negri, em diferentes estádios de desenvolvimento da economia e das forças produtivas.
Mas não deixa de ser verdade que é na democracia de modelo ocidental que ele mais floresce e se torna mais perfeito. É neste ambiente que ele se torna total. Que passa da exploração primária dos recursos, tornando-se uma força que abrange todos os sectores da sociedade e das nossas vidas.
Publicado por [Anónimo] às junho 18, 2009 05:00 PM
Toni Negri, esse grande teórico que defende que não existe imperialismo...
Publicado por [ivan drago] às junho 18, 2009 05:26 PM
Também li o texto de Jorge Bateira e não podia estar mais de acordo ou em sintonia com o que aqui escreves. Já tinhas aliás escrito aqui no Spectrum algo que ia neste sentido.Tu e o Rick. O que esta crise financeira e dos mercados vem mostrar(demonstrar?) é a falência deste modelo económico (político por contaminação necessária). Não é um modelo aperfeiçoável, adpatável. Mas o caminho da governabilidade mais avisada seguirá, e com vontade até da nossa parte para que siga, o texto de Bateira. A verdadeira social-democracia como nunca o PS ousou.
Publicado por [Jó] às junho 19, 2009 10:41 AM
nesse grande debate lançado por esse grande castor marxista sobre para que lado pesa a balança entre o ontológico e o dialéctico, em cada um de nós e nas coisas que fazemos, o spectrum é claramente dialéctico, ou para usar uma proporção, cerca de 80% dialéctico.
isto para dizer, que basta umas fogueiras num qualquer lugar da luta de classes para a qualidade dos posts subir vertiginosamente, do mesmo modo que quando não se passa nada não se passa nada: uns posts miseráveis de uma pobre ontologia.
belo post.
Publicado por [maria] às junho 19, 2009 12:44 PM
Resquícios esquerdistas ...
"Creio que o que historicamente está em jogo é a possibilidade (ou não) de ruptura radical com essa forma de viver."
E tu? como é que vais? Esse altruísmo ainda te vai matar
Publicado por [Anónimo] às junho 25, 2009 01:56 AM
Está visto e provado que a ruptura com as políticas de direita só é possível com a alteração da correlação de forças.
Ou não?
Publicado por [Luis Almeida] às junho 25, 2009 12:21 PM
A questão, Luis Almeida, é que o que diz não passa de um artifício táctico para dissimular a verdadeira estratégia, que é: «Estamos disponíveis para uma solução de governabilidade quando formos suficientemente fortes para que os outros adoptem o nosso programa». Veja o que disse Ilda Figueiredo quando lhe perguntaram na noite das eleições se estava disponível para trabalhar com as outras forças do GUE/NGL com as quais o PCP tem divergências. É, no fundo, a via sectária para a governabilidade.
Mas o que pretendi sublinhar com este post foi a ideia de que a obsessão com o acesso à governabilidade por parte das forças partidárias de esquerda (contrariando o pressuposto do Jorge Bateira), seja aproveitando qualquer nesga de oportunidade para influenciar o poder seja acantonando-se numa posição de resistência à espera que um dia destes a correlação de forças se altere, traduz uma posição defensiva e, de facto, não revolucionária. O problema de se indexar toda a actuação política à ideia positivista de uma «alternativa de esquerda» leva à incapacidade de se mobilizar instrumentos, meios e práticas que se situem fora (e necessariamente contra) dos instrumentos, meios e práticas do poder estabelecido.
Creio, pelo contrário, que uma (absolutamente indispensável e urgente) estratégia transformadora terá que alicerçar-se numa prática social negativa que seja ela própria a construção de uma forma de viver radicalmente nova. E disso, parece-me, estamos bastante longe.
Publicado por [Manic Miner] às junho 25, 2009 05:06 PM
You're the gereastt! JMHO
Publicado por [Pepper] às maio 26, 2011 08:19 AM
