« Ao vivo do Irão | Entrada | Até já camaradas »

junho 20, 2009

Jornalismo (Im)Provável

Neste poço onde encontramos o jornalismo cada vez mais fundo (tão fundo, tão fundo que é quase impossível vê-lo) alguém se lembrou de reeditar 21 minutos de telejornal para falar de amor, rissóis e casas caiadas de branco. No Teatro Maria Matos há um espectáculo que é um esboço, um homem (Tiago Rodrigues) que, na penumbra, sincroniza a sua voz com a do pivot e dá notícias diferentes da catarse da catástrofe e das curiosidades sociais com o dito "valor-notícia" que as imagens nos sugerem. Diz que é teatro. Teatro sobre jornalismo sobre teatro.

E eu, que nos últimos tempos assisti aos dois melhores espectáculos teatrais dos últimos anos - «Manuela Moura Guedes versus Marinho Pinto», na TVI, e «Romeo and Juliet» dos Nature Theater of Oklahoma, no Teatro Maria Matos, fico impressionada.

Afinal, é-me cada vez mais difícil perceber as fronteiras entre política, jornalismo e teatro. Todos concorrem para uma «(...) eficácia expressiva: a organização do espaço, o programa concebido à maneira de um cenário, o protocolo e a ordem de entradas, os códigos verbais, musicais e as formas de retórica, as convenções dirigindo o aspecto dos actores principais. A importância concebida à imagem e ao som, a capacidade de transmitir o acontecimento cerimonial em múltiplos lugares fazem intervir uma 'retórica da retransmissão'; impõe a sua própria lógica na dramatização, na escolha do que é dado ver, jogando sobre os planos de cena e sobre a apresentação dos personagens centrais; ele faz intervir os elementos acessórios, espectaculares, propícios a uma adesão emocional» [George Balandier]. A diferença está que o teatro é o único que o faz honestamente. Viva o Teatro!

Publicado por [Joystick] às junho 20, 2009 11:47 AM

Comentários

Chamar espectáculo teatral à justa indignação do Marinho Pinto, após uma peça de jornalismo do enxovalho, é um bocado injusto.

Publicado por [CatarinaM] às junho 20, 2009 12:45 PM

Jornalismo de enxovalho é espectáculo teatral. A reacção faz parte. É o grande clímax. Nada do que está dito é sobre justiça ou injustiça das personagens ou deixas. É sobre espectáculo.

Publicado por [Joystick] às junho 20, 2009 01:26 PM

O que mais me faz impressão no jornalismo que se vai fazendo actualmente, e que está associado a esse aspecto teatral e espectacular que referes, é a efemeridade do que hoje se considera notícia. O acidente de viação com dois portugueses e um espanhol na A43, o incêndio no n.º 4 da Rua do Meio, em Amarante, as declarações do presidente do benfica a propósito do jogo contra o Leixões, etc... Tudo coisas irrelevantes que uma semana depois já ninguém se lembra. Não mudam o mundo, não mudam as nossas vidas, enfim... são nadas elevados à categoria de notícias.

Publicado por [Anónimo] às junho 20, 2009 02:48 PM

Bom post. De onde retiraste essa citação, podias partilhar?

Publicado por [Anónimo] às junho 21, 2009 03:37 AM

Citação de BALANDIER, Georges, "O Poder em Cena", Colecção Comunicação, Minerva, Coimbra, 1999.

Publicado por [Joystick] às junho 21, 2009 02:58 PM

Meu caro, tomei a liberdade de usar uma imagem deste post aqui: http://edpirata.blogspot.com/2009/07/com-um-telejornal-desses-nao-admira.html .

Publicado por [Zé do Telhado] às julho 2, 2009 01:39 PM

Meu caro, tomei a liberdade de usar uma imagem deste post aqui: http://edpirata.blogspot.com/2009/07/com-um-telejornal-desses-nao-admira.html .

Publicado por [Zé do Telhado] às julho 2, 2009 01:39 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)