« Uma tendência comum a intelectuais da classe média. | Entrada | Quem foi a vaca que deu este Leite? »

novembro 19, 2008

O desejo de ser inútil

- Qual é a sua própria ideia de Jesus?

- Acredito que tenha existido, mas não que era filho de Deus, enviado pelo pai para nos salvar. A ideia de um deus que se faz homem e sofre pela humanidade não é, aliás, exclusiva do cristianismo. Sem ir muito longe, sem recorrer às crenças dos aborígenes da Austrália, das civilizações pré-colombianas ou dos bosquímanos do deserto africano do Kalahari, podemos associar Jesus ao Prometeu da mitologia grega, que, tendo facultado aos homens o fogo e o saber, se vê agrilhoado no cume do Cáucaso com uma águia que lhe devora o fígado, até que Hércules o liberta. E diz-se também que Prometeu tinha criado os mortais, moldando-os com argila. Quanto ao Jesus que nos apresentam os Evangelhos, parece-me muitas vezes mais fanático do que tolerante. Por exemplo, ele diz que não traz apenas a paz, mas a espada: pode trazer-se ambas ao mesmo tempo? Ou então, frustrado porque uma figueira não tem frutos, amaldiçoa-a e torna-a estéril para todo o sempre, quando nem sequer era a época dos figos. Claro, dizem-nos que é uma parábola, que a figueira é uma imagem de Israel, mas tal comportamento da parte de um homem suposto ser o filho de Deus parece-me bem estranho, enfim, amaldiçoar uma árvore! Há um Evangelho apócrifo em que Jesus provoca a morte de uma criança que troça dele...
Mas mesmo aquilo que consta oficialmente do Novo Testamento deixa-me a impressão que Jesus era um fanático. Penso nomeadamente no episódio sobre os mercadores do Templo de Jerusalém. Os romanos obrigavam a pagar em moeda a participação nas cerimónias religiosas.; toleravam todos os cultos, mas sacavam dinheiro, o que é uma ideia bastante moderna. Quando os judeus iam vender algo ao Templo, era simplesmente para obter em troca o dinheiro necessário à prática do culto. Nessa época o uso de moedas não era generalizado, praticava-se muito a troca directa. mas os romanos, decididamente mais modernos, só aceitavam moedas. E Jesus, como se não soubesse que tal situação era inevitável, improvisa um chicote com cordas e zurze os mercadores: para mim, Jesus, é o exaltado de Nazaré.

Hugo Pratt, O desejo de ser inútil

Publicado por [Renegade] às novembro 19, 2008 12:35 PM

Comentários

Para Lêr:

"As Heresias" Raoul Vaneigem (biblia como consulta)

Para Televêr:

"Zeitgeist"

Para pensar:

A personagem imaginada de Jesus, tem tanto de fanático como de socialista. Os fanáticos são sempre, sempre, salve raricimas excepções socialistas, assim como os socialistas são muitas vezes fanáticos. Todos são imaginados. E todos são para os outros. Não existe socialismo individualista nem fanatismos pessoais.
ex: Hitler, Madre Teresa, Xeguevara, etc

Adriano

Publicado por [Anónimo] às novembro 19, 2008 05:33 PM

Grande livro.
Se me permitem, prefiro a passagem que se segue!


"Foi de facto o fascismo que, graças aos seus movimentos de juventude, me deu a possibilidade de sair do circuito familiar. Incentivou-se o convívio entre rapazes e raparigas (...) Usávamos então uniforme, as meninas de blusa branca e saia preta, eu de camisa negra e calções verde-cinza; e não faltavam as insígnias, que ostentávamos com orgulho. Era uma espécie de escutismo pré-militar. Líamos juntos, num jornal de rapazes, Il Balilla, uma página onde as frases se concluíam com desenhos. As meninas tinham o seu prórpio jornal ilustrado, La Piccola Italiana.
O fascismo não negava a beleza dos corpos, a atracção física. Ele advogava o mens sana in corpore sano de Juvenal - «um espírito são num corpo são» - e ignorava as intenções judaico-cristãs. (...) O fascismo libertou dos tabus os jovens da minha geração, deu-nos uma certa liberdade e a possibilidade de uma aventura individual, ao passo que antes isso era vedado; a aventura era vista como ruptura, dizia-se que infrigia as leis da sociedade. O fascismo fez-nos sair da opressão da Igreja e da Família. Evidementente, o fascismo foi ao fim ao cabo uma catástrofe, mas aos dez anos ter-me-ia surpreendido bastante se alguém o denunciasse. Aderi sem reservas, até à minha estadia na Etiópia. (...) E na minha primeira infância, por estranho que possa parecer hoje em dia, não era evidente que o fascismo fosse um movimento de extrema-direita. O fascismo pretendia introduzir mudanças na sociedade, ao passo que a mentalidade burguesa é conservadora e tem horror à mudança. O regime promulgou a escolaridade obrigatória, permitindo a crianças de dez anos não trabalhar mais na fabricação do enxofre, e organizou grandes trabalhos na Siália e nos pântanos. Mussolini partira do socialismo, o pai dera-lhe o nome de Benito em honra do herói progressista mexicano Benito Juárez. Os poemas do meu avô, fundador do fascismo veneziano, têm aliás aspectos socializantes."

Hugo Pratt
in "O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões", Relógio d’Água (2005)


via infoinconformista.blogspot.com/2008/05/hugo-pratt-sobre-o-fascismo.html

Publicado por [Miguel Vaz] às novembro 19, 2008 07:42 PM

obrigado pelos conselhos de video-leitura, adriano.
Miguel Vaz, o Pratt tem essa costela algo iconoclasta que me agrada. Mas longe de mim (e dele, já agora) achar que qualquer fascismo pode ser positivo.

Publicado por [renegade] às novembro 20, 2008 02:03 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)