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agosto 25, 2008
Fragmentos de uma viagem (2) – Síria e Líbano

As minhas expectativas eram grandes em relação a estes dois países. A história política e cultural palpita por cada esquina que passamos... e em cada passo que dei as minhas conscientes representações orientalistas foram-se desmoronando até à criação de novas imagens baseadas na experiência palpável.
Carrego comigo a nacionalidade portuguesa e com ela um pesado passado colonialista. Identifico-me como europeia e com ela transporto um espaço Schengen selectivo, um pseudo-requinte e uma superioridade de valores morais ficcionada.Venho do Western... mas o West of what ? O West do Oriente? Meti à prova continuamente a minha falsa modéstia de colonizadora arrependida: isto é o Oriente tal como ele é! Mas afinal onde se encontra o Harém? Faço feedback na minha viagem e lembro-me que a visita às reminiscências do Harém no Topkapi Palace em Istambul foi um regozijo, recuando assim a tempos passados e ainda bem perdidos! Perdi-me em zigzags, labirintos e antagonismos entre Ocidente e Oriente. Estava imersa num banho orientalista... tive que secar gota a gota este orientalismo para me tornar uma transeunte europeia sem luzes nem civilização nos bolsos no Próximo Oriente.

Esta Síria, onde de Alepo a Damasco fui recebida com um bonito sorriso que me dizia Welcome. “Where are you from” perguntavam-me as pessoas… e uma ponte de Síria a Portugal construía-se imediatamente através do futebol. Poucos são os contactos histórico-diplomáticos entre estes dois países. Eu sem saber a língua deles, eles sem saberem a minha, Figo para os adultos, Cristiano Ronaldo para as crianças... e por uma vez o futebol proporcionou-me fantásticos momentos.
Ouvi o aramaico, a língua que Jesus falava e que meia dúzia de pessoas ainda fala em duas aldeias perdidas na Síria. Resistência linguística da parte destas pessoas, sobre a qual me questiono se isto será um obstáculo rígido à evolução normal das línguas ou uma preservação dolorosa de um património ou ainda uma herança pesada a carregar?
Quintas feiras, nas noites de verão, foi engraçado percorrer Damasco de carro e ver um fenómeno local... em cada esquina, pedaço de terreno, nos bordos da estrada as famílias e amigos fazem piqueniques, mas que picnics!
Este Líbano donde dos escombros de guerra emerge uma vida extravagante e exaltante. Desembarco directamente em Beirute, sinto uma brisa do mar que tão bem conheço de um país que ladeia igualmente as investidas das ondas... apercebo-me rapidamente que a braveza do Oceano Atlântico não é a mesmo que o ardor do Mar Mediterrâneo.Dois países pequenos e estreitos de forma, com mais de metade da população em todos os cantos do mundo, e no entanto sem nada a dizer um ao outro. Nem norte nem sul do Líbano, fui uma refém feliz do West Beirute (mais dias do que o previsto). Mas não esquecerei também o chamado centro da cidade onde existem desfiles contínuos de mulheres com narizes de plástico e homens com um bronzeado cor-de-rosa.
E quando de repente ouço explosões vindas de cada canto da cidade, coincidindo com as três horas quotidianas de corte de electricidade (consequência, parece, da guerra de Julho 2006), sozinha em casa, sem horas e sem telefone, a adrenalina e o medo sobem à cabeça como se estivesse à espera deste acontecimento desde o momento que meti os pés nesta região. Felizmente a vizinha estava presente e através do árabe e gestos consegui compreender que os estudantes festejam assim o fim do ano escolar. Gozo agora desta situação ridícula com um sorriso intimidado, mas como poderia eu ter reagido de maneira diferente se nunca ouvi o barulho de uma bala real.
Os bastidores políticos, sociais e culturais desta cidade e deste país são complexos. Devagarinho início um puzzle de 50 000 peças para o meu próprio prazer. Bem sei que é um passatempo masoquista uma vez que faltarão sempre peças que se encontram bem guardadas nas entranhas desta sociedade e deste povo. Alimentando um efeito de curiosidade sobre o transeunte, o Líbano é sem dúvida feito de contrastes e enigmas.
Perdi a minha máquina fotográfica já nos territórios palestinianos ocupados em 48, por ironia da situação perdi com ela as fotografias de Damasco e de Beirute onde passei os melhores momentos de uma viagem de dois meses.
Publicado por [Shift] às agosto 25, 2008 03:55 PM
Comentários
o barulho de uma bala não é muito diferente do de um foguete. mas como estavas em beirute "tinha que" ser bala, não é? (!)
tenho cá a alice e uma amiga. quando vens cá contar estas histórias?
Publicado por [renegade] às agosto 26, 2008 08:37 PM
Só uma dúvida?
Como é que conseguiu entrar em Israel sem passar pela Jordânia?
Publicado por [Luís Bonifácio] às agosto 28, 2008 11:39 PM
Nao se preocupe, os fragmentos de viagem numero 3 estao para chegar.
e sim... para se chegar à Palestina somos obrigados a passar por portas israelitas!
Publicado por [shift] às agosto 29, 2008 12:54 PM
Estava a ver que a Síria já tinha feito as pazes com Israel!
Está tudo explicado.
Ainda bem que fez a viagem nesse sentido, pois no sentido inverso já não era possível.
Publicado por [Luís Bonifácio] às agosto 29, 2008 07:29 PM
"já nos territórios palestinianos ocupados em 48"
Presumo que se refere à ENTIDADE NAZI-SIONISTA. o tal little shitty country que qualquer dia vai desaprecer das páginas da história...para dar lugar a uma Palestina una democrática e laica para todos os crentes das religiões do Livro. VIVA A PALESTINA LIVRE !
Publicado por [Euroliberal] às setembro 1, 2008 11:50 AM
"Identifico-me como europeia e com ela transporto um espaço Schengen selectivo, um pseudo-requinte e uma superioridade de valores morais ficcionada."cara amiga,tive este sentimento em relação aos europeus quando conheci Portugal( Porto e Lisboa),( Vigo Esp.)porém se formos pensar "requinte de superioridade",devemos lembrar que Portugal e Espanha e muitos outros lugares da europa já foram Árabes/mouros e em suas culturas estão inseridas a cultura árabe. Então qual a razão deste sentimento ?
Publicado por [Paulo Cateb] às janeiro 16, 2010 01:41 PM
