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agosto 23, 2008
Fragmentos de uma viagem (1) - Turquia

Entre decotes e burcas, as mulheres, através dos seus trajes, fazem a diferença no panorama turístico de Istambul. Esta cidade parece assim ser o ponto de encontro entre o "Ocidente e o Oriente"... falso antagonismo que vai para além dos círculos turísticos. A própria cidade está dividida em Europa e Ásia. Mesmo se esta divisão não corresponde necessariamente aos múltiplos modos de vida respectivos de uma e outra região, a denominação –Europa e Asia- faz eco nas mais sinceras percepções ocidentais sobre a Turquia.
Claro que esta bipolaridade não é tão real como aquela que os meus olhos poderiam ter tendência a fabricar. Lendo um artigo no LeMondeDiplomatique sobre a viragem diplomática da era Sarkozista, não poderia estar mais de acordo com De Gaulle quando este defendia que mais valia não voar em direcção do Oriente complexo com ideias simples. No entanto, e sem margem de dúvida, a argumentação De Gaulle tem um saborzinho a imperialismo colonial europeu.

Uma personagem acompanhou-me durante o meu trajecto de norte a sul do país. Mustafa Kemal Ataturk – “o pai dos turcos”. O fundador da República Turca encontra-se por todo o lado, das paredes da sala de estar às casas de banho, dos restaurantes aos bares e por fim em todo o dinheiro turco, seja ele de um valor alto ou baixo! Se para muitos ele é um símbolo de modernização da Turquia, desde a sua fundação nos anos vinte do século passado (ou seja, no fim do Império Otomano), para outros ele é uma figura indispensável na salvaguarda de eventuais derivas islâmicas ou derivas excessivamente progressistas de carácter socialista na Turquia! O exército e a justiça estão presentes para assegurarem esta débil estabilidade, uma vez que a Turquia ferve por todos os lados. Mas Ataturk tem uma outra face, ele esta na base não só de uma das maiores revoluções linguísticas de todos os tempos (latinização do alfabeto da língua turca, outrora árabe), mas também na interdição bárbara de códigos sócio-culturais curdos, Orientais, entre outros. Deixou marcas mas não resultou a 100%.
Na conversa com alguns jovens turcos a palavra Curdistão é considerada uma ofensa para a dita "coesa" Republica Turca, não obstante, a existência de curdos com mais "pêlos" do que os turcos também é uma realidade para estes jovens. Enfim, paradoxos existências entre terras e povos não só exclusivos à Turquia!
Estava em Istambul quando se deu o atentado contra a Embaixada dos USA. Nada soube sobre o acontecimento no próprio dia, talvez por não saber a língua. O PKK estava longe das acusações. O método utilizado no atentado era similar aos métodos utilizados pela Al-Quaeda, no entanto os rumores apregoaram que o atentado fora cometido por forças secretas com algum poder político no interior do próprio Estado. Uma pessoa tentou-me explicar com mais detalhes estas forças intra-estatais secretas, compreendi muito pouco.
Apanhei o autocarro de Ankara a Gorême (Cappadocia)... Um transporte excelente com um serviço semelhante às melhores companhias aéreas. Muitos dos passageiros seriam citadinos de origem rural, eu deveria ser a única estrangeira.Ao ultrapassarmos um camião de gado com cerca de 100 pessoas no interior, 4 ou 5 pessoas dentro do meu autocarro olharam repentinamente para mim. Tentei compreender a situação, uma justificação me viera à cabeça... vários indícios acumulados durante a viagem me levam a crer que existe um esforço claro de provar a modernização da Turquia ao visitante, esperando com isso uma “certa” legitimação do Ocidente (acentuado pela perspectiva de entrar na União Europeia)... Como dizer a estas pessoas que no país onde nasci (Portugal), a minha mãe não pode cultivar a terra no domingo pois tal acto é considerado um pecado pela comunidade aldeã! Como dizer as estas pessoas que no país onde vivo (França) as autoridades metem indivíduos em centros de retenção, submetidos a condições deploráveis, pelo simples crime de serem estrangeiros! O transporte desumano de 100 pessoas no interior de um camião não é justificável, mas também não deveria ser, por motivos humanitários, entre outros, que a um país é recusada a entrada na União Europeia. Se a ética europeia está a um nível tão superior então que a utilizemos para elevar a dos outros! Mesmo se o condutor do autocarro tenha ido embora com a minha bagagem enquanto eu estava na casa de banho, apenas consigo ver um estúpido erro estratégico da parte da União Europeia de adiar a entrada deste enorme e magnífico país no seu seio.
Publicado por [Shift] às agosto 23, 2008 07:34 PM
Comentários
Bom post. Continua!
Publicado por [Anónimo] às agosto 25, 2008 05:56 PM
