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maio 05, 2008

Salvar a pátria


“Tratava-se de reunir quatro cónegos e um monsenhor, estrategicamente localizados no Norte, com Alpoim Calvão. A minha intenção era demonstrar aos nossos «pilares humanos» na estrutura da igreja de que dispunhamos de um chefe militar prestigiado e, simultaneamente, demonstrar ao comandante Calvão que era capaz de levar a Vigo figuras tão importantes na hierarquia da Igreja do Norte como o cónego Aníbal, de Lamego; o cónego Ruivo, de Bragança; um representante do Bispo de Bragança (do qual não me recordo o nome); o monsenhor Sarmento, de Vila Real de Trás-os-Montes e o cónego Melo, de Braga.”[...]
O que poderia o povo fazer, se não dispunha de TV, nem da Rádio, nem da Imprensa, de forma a que os ocupantes do Poder vissem, ouvissem ou lessem a vontade popular? O instinto de defesa e a sabedoria ancestral imaginaram um processo audio-visual de comunicação: o barulho das bombas e a visão dos incêndios. Quando o Norte ardeu, estava apenas a comunicar: as sedes do PCP foram apenas órgãos de comunicação social. [...]
Foram de facto os «anjos de D.Francisco» que em três meses (Julho, Agosto e Setembro de 1975) organizaram em todo o Norte uma imensa estrutura destinada basicamente à profilaxia da guerra. Preparando-se friamente para ela, evitaram-na. Mostrando força crescente, arrefeceram o histerismo do inimigo. Usando a informação e a desinformação, condicionaram o cérebro de populações inteiras, a nível de pequenos grupos de freguesias, ao ponto de se poder desencadear à distância, com um simples panfleto, uma movimentação popular. Foi assim, por exemplo, o caso que a impensa da época classificou de «guerra de Leiria», que durou três dias. Foram assim os chamados «assaltos» às sedes comunistas, feitos pelo povo sem armas, mas sobre quem os comunistas disparavam tiros de caçadeiras e de G3 (casos de Famalicão, Fafe, Santo Tirso, etc.) onde os próprios militares dispararam sobre o povo. Mas um autêntico movimento popular (que os comunistas de facto nunca conseguiram realizar mesmo no Alentejo) tudo ultrapassava. E nessa agitação participavam todos de mãos dadas: bases do CDS, do PPM, do PPD e do PS. Talvez seja novidade saber-se que um dos principais organizadores da manifestação de 10 de Agosto, em Braga, de apoio a D. Francisco, foi exactamente um membro da Comissão Distrital do Partido Socialista, Romeu Maia.”

Paradela de Abreu, Do 25 de Abril ao 25 de Novembro, Intervenção, Lisboa, 1983

Publicado por [Rick Dangerous] às maio 5, 2008 05:33 PM

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