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abril 23, 2008
No jornal da mentira desconcertante

Quando se pensava que era difícil descer mais baixo, eis que uma nova categoria de infâmia se torna aplicável ao director do jornal de Belmiro de Azevedo. Num editorial que ficou à espera do último suspiro de um moribundo para ver a luz do dia, José Manuel Fernandes ajusta contas com o seu passado caluniando Francisco Martins Rodrigues.
Para além das lamechices acerca da sua família e das insípidas memórias marxistas-leninistas de Fernandes (ao que parece a sua grande motivação para a leitura era "poder perceber melhor porque é que o PCP era «revisionista»"), segue-se aqui até às últimas consequências a estratégia da amálgama, tão cara à literatura anti-comunista.
Ficamos a saber que Francisco Martins Rodrigues conhecia - "Não podia deixar de a conhecer" - a realidade concentracionária do socialismo real, "Mas acontecia que a aceitava. Tinha-a por inevitável em nome da necessidade de conduzir a humanidade para a radiosa utopia comunista. E recusava questionar os métodos, porque «não havia outra maneira de o fazer»".
Comecemos por esclarecer que a confusão que aqui se estabelece - entre actos de violência em contextos revolucionários e a existência de um amplo aparato repressivo ao serviço da ditadura de um partido único - só é possível em dois tipos de narrativas ficcionais: a estalinista e a ultra-montana. Só aí uma revolução social pode ser sucessivamente desfigurada até poder ser confundida com a substituição de uma burguesia incipiente por uma burocracia inflexível. Só aí se produz essa zona de sombra, onde a ditadura do proletariado pode ser confundida com a ditadura sobre o proletariado. Só aí processos sociais e acontecimentos históricos de grande envergadura podem ser reduzidos a episódios secundários de uma conspiração bem urdida.
O tema principal dessa narrativa, aliás, é o de que há sempre alguém a mexer cordelinhos, uma ou outra variante de poder oculto que nunca perde o controlo da situação. A concepção policial da história une aquilo que as auto-representações de cada uma destas tradições políticas consideram estar separado e denuncia a sua mesma natureza arcaica. Foi num seminário ortodoxo que Josef Estaline, filho de um sapateiro pobre de Tiblissi, se iniciou nas coisas do espírito. Quem ler as suas obras escolhidas, sem a reverência adolescente de José Manuel Fernandes, dificilmente pode ignorar a filiação religiosa do seu pensamento. Nunca ninguém, na história do movimento operário, havia sentido a necessidade de espalhar a sua própria fotografia por todo o lado e gerar em torno dela um culto laico, confundindo a sua representação icónica com a da própria ideia de revolução. O estalinismo representou, a esses dois níveis - o da filosofia da história e o do culto da personalidade - uma profunda descontinuidade com a tradição comunista do movimento operário.
De resto, e uma vez que esses dados costumam ser apresentados como definitivos acerca deste tipo de questões, ninguém se revelou tão eficaz a perseguir, deportar e executar comunistas. Sem essa limpeza de balneário, teria sido difícil generalizar aquilo a que o dissidente jugoslavo Ciliga chamou «a mentira desconcertante».

Mas este parágrafo está repleto de falsidades bem mais graves e significativas, desde logo porque Francisco Martins Rodrigues abandonou a UDP em 1983 e as suas reflexões não cessaram de o afastar do estalinismo, em busca de uma formulação alternativa dos problemas políticos enfrentados pelo movimento revolucionário português, em tempo de refluxo acentuado. É isso mesmo que não se lhe perdoa e que Fernandes procura manchar de lodo: o facto de um militante formado na clandestinidade e impregnado de uma tradição política estalinista nunca ter cessado de procurar enfrentar os problemas concretos levantados pela sua própria actividade, levando esse enfrentamento até às últimas consequências se necessário. Só que essas últimas consequências não foram nunca a perseguição de dissidentes ou a ambição de um exercício implacável do poder, como José Manuel Fernandes sugere. As últimas consequências foram, para Francisco Martins Rodrigues, a ruptura com uma concepção política que se revelava incapaz de enfrentar os problemas da luta revolucionária em Portugal. Ruptura que operou em 1963 e novamente em 1983, não para se desviar dos problemas, mas para os encarar em toda a sua complexidade e encontrar formas eficazes de lhes fazer face. As últimas consequências incluíram a admissão pública do erro e um exame crítico severo das suas causas e implicações - o que é muito mais do que se pode dizer acerca de José Manuel Fernandes, que passou de um marxismo-leninismo especialmente bafiento para um liberalismo especialmente duvidoso com a facilidade com que se abandona uma casa de banho pública.
Francisco Martins Rodrigues combateu durante mais de 50 anos e escreveu muitas coisas, algumas das quais contradisseram coisas que já tinha escrito. Mas distingiu-se sempre por um esforço e uma exigência pessoal de pensar pela própria cabeça, de não responder aos problemas difíceis com fórmulas fáceis, respostas estereotipadas e cassetes políticas. Lendo o que escreveu nos anos 60 (mas também o que escreveu nos últimis 20 anos), o mínimo que se pode dizer é que esteve sempre muitas léguas à frente, acima, ao lado, longe, bem longe, de medíocres como José Manuel Fernandes, que estão sempre prontos a concordar com quem manda, a integrar todas as direcções e a dar todas as ordens, para além, evidentemente, de repetir e reproduzir todas as aberrações disfarçadas de comunismo que aprendeu dos seus «mestres do marxismo-leninismo».
É por isso falso que a pretensa "solidão" e "teimosia" da sua vida se tenha devido à sua imutabilidade. Pelo contrário, foi precisamente por ser um dos poucos disponíveis para assumir as implicações políticas de cada escolha que se viu quase sempre sozinho ou pouco acompanhado nas suas críticas. Quando saiu da UDP por exemplo- "As minhas divergências e de outros militantes com a direcção do PC(R) começaram mais tarde, por causa dos contornos tenebrosos que estava a tomar a situação na Albânia, por causa da questão Staline, que era proibido discutir, e pelas restrições ao debate interno, em nome da disciplina partidária. Parecia que era um partido ainda na clandestinidade, não se podia falar fora das reuniões, enfim, um ambiente doentio. Saímos portanto um grupo de uns 40 em 1983." - mas também quando saíu do PCP, onde a causa principal não foi tanto a substância da polémica sino-soviética (como aparece no capítulo do livro de Pacheco Pereira hoje disponível no Públic) mas muito mais o debate acerca da orientação estratégica a seguir pelos comunistas em Portugal, face ao salazarismo.
É ainda mais grave a acusação que se segue, segundo a qual Francisco Martins Rodrigues não apenas compreenderia os métodos repressivos do socialismo real como estaria à espera da primeira oportunidade para os reproduzir:"Entendia o comunismo como uma doutrina com consequências, e como comunista acreditava que utilizava uma teoria política científica capaz de descrever o futuro, que tinha um papel a desempenhar para acordar os operários e que estes tinham de impor, pela ditadura, a sua vontade à maioria, de forma a conduzi-los a um mundo melhor. Esse destino justificava todo o sangue que tivesse de ser vertido, como haviam ensinado os mestres do marxismo-leninismo."
Este parágrafo explica, melhor do que qualquer incursão auto-biográfica, a concepção de comunismo que José Manuel Fernandes abraçou na sua juventude. É seguramente para a afogar, juntamente com outros fantasmas da sua juventude, que escreve os disparates costumeiros sempre que se dedica ao tema. Enquanto o Belmiro pagar não parece haver qualquer problema em dispôr do espaço do editorial para esta espécie de terapia psiquiátrica (cuja necessidade ninguém pode seriamente negar). Que se meta com os mortos é que já me parece ser mais complicado. Torna mais difícil aceitar a hipótese de também ele possuir um lado humano que possamos um dia vir a conhecer.
Entretanto, e através do Estudos sobre o Comunismo, cheguei a esta edificante troca de opiniões entre José Manuel Fernandes e Pinto de Sá. Como sou um gajo interessado nestas coisas, vou tirar um dia da próxima semana para lêr os artigos de José Manuel Fernandes em que um agente da PIDE e alguém que prestou informações sob tortura são considerados iguais.
Publicado por [Rick Dangerous] às abril 23, 2008 07:29 PM
Comentários
Gente como José M Fernandes até deveria sair à rua de "cara tapada".
Quanto a FMR, independente da homenagem de lutador incansável e corajoso, vale a pena questionarmo-nos sobre o seu percurso político. Há algum tempo, por volta de um dos últimos aniversários, a revista Política Operária escrevia qualquer coisa parecido com isto:
"ao fim destes anos não reconstruímos o partido, não influenciamos massas, não temos ligações internacionais de significado...". Parece que assim é.
Por isso, a luta vale para ganhar massas, para fazer evoluir a sua consciência, para ganhar lutas, para influenciar a luta de classes, para lixar a burguesia, para a dividir, para a derrotar, para renovar condições de acomulação de forças para o nosso "exército", para descobrir caminhos novos na afirmação do comunismo ante esta globalização capitalista e, nada disto, se faz com dogmatismo.
O dogmatismo foi um dos grandes problemas do lutador Francisco Martins Rodrigues. E também por isso a sua organização não passa de um pequeno grupo que pouco conta na luta de classes.
Salvo melhor opinião, que há que respeitar, pode-se dizer com pena, pode-se desejar outra coisa, mas o caminho do dogmatismo foi o crescente isolamento.
Os comunistas podem até ser poucos, muito poucos, mas isolados é que não convêm ficar!
Publicado por [ideal comunista] às abril 24, 2008 10:55 PM
Ficamos à espera do resultado das tuas leituras, Rick.
Que estremeçam as classes dominantes: Temos um homem dentro da torre do tombo!
Publicado por [Saboteur] às abril 25, 2008 11:38 AM
do bombo, torre do bombo.
...por isso o vi no outro dia a falar ao tm nos arredores...
Publicado por [Anónimo] às abril 25, 2008 12:53 PM
Geez, that's ubneleivable. Kudos and such.
Publicado por [Graceland] às julho 8, 2011 08:55 PM
Cheers pal. I do aprpceiate the writing.
Publicado por [Digger] às julho 9, 2011 03:31 PM
