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abril 28, 2008

Ma l'amore mio non muore


"Periodicamente, a esquerda sofre derrotas. Isso agrada-nos, mas não nos chega. Pretendemos que a sua derrota seja definitiva. Sem remédio. Que nunca mais o espectro de uma oposição conciliável venha planar no espírito daqueles que se sabem inadequados ao funcionamento capitalista. A esquerda – e isto é admitido pelo mundo inteiro hoje em dia, mas recordá-lo-emos ainda depois de amanhã? – faz parte integrante dos dispositivos de neutralização próprios da sociedade liberal. Quanto mais se agudiza a explosão do social, mais a esquerda invoca a «sociedade civil». Quanto mais a polícia exerce impunentemente o seu arbítrio, mais ela se declara pacifista. Quanto mais o Estado se liberta das últimas formalidade jurídicas, mais ela se torna cidadã. Quanto mais cresce a urgência de nos apropriarmos dos meios da nossa existência, mais a esquerda nos exorta a esperar, a reclamar a mediação, se não mesmo a protecção, dos nossos senhores. É ela que nos incentiva hoje em dia, perante governos que se colocam abertamente no terreno da guerra social, a procurar a sua compreensão, a redigir as nossas queixas, a formular reivindicações, a estudar economia política. De Léon Blum a Lula, a esquerda nunca foi mais do que isto: o partido do Homem, do cidadão e da civilização. Hoje em dia, este programa coincide com o programa da contra-revolução integral. O de manter de pé as ilusões que nos paralisam. A vocação da esquerda é portanto a de expôr o sonho para cuja realização só o Império dispõe dos meios. Ela constitui a faceta idealista da modernização imperial, a válvula necessária à insuportável marcha do capitalismo. Já não repugna escrever nas próprias publicações do ministério da juventude, da educação e da investigação: “Doravante todos sabem que sem a ajuda concreta dos cidadãos, o Estado não terá nem os meios nem o tempo para erguer as obras que podem evitar a explosão da nossa sociedade.” (Envie d’agir – Le Guide de l’engagement)
Desfazer a esquerda, ou seja, manter constantemente aberto o canal do descontentamente social, não é apenas necessário mas, hoje em dia, possível. Somos testemunhas, ao mesmo tempo que se reforçam a um ritmo acelerado as estruturas imperiais, da passagem da velha esquerda trabalhista, fóssil do movimento operário e dele proveniente, a uma nova esquerda, mundial, cultural, da qual podemos afirmar que o negrismo forma a ponta mais avançada. Esta nova esquerda está ainda mal informada acerca da recente neutralização do «movimento anti-globalização». Os logros que ela avança passam ainda enquanto tais, ao mesmo tempo que os antigos já não surtem efeito."

Appel, autor anónimo, Edições Antipáticas, Lisboa, 2008

Publicado por [Rick Dangerous] às abril 28, 2008 08:03 PM

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