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fevereiro 21, 2007

To cut a long story short

Renegade desafia-me a contar mais coisas sobre a minha viagem, colocando-me numa posicao mais favoravel do que Miguel Portas para compreender o que aqui se passa.
Passa-se que eu nao falo concani e logo a minha aproximacao a este mundo e sempre exterior e superficial. Nao me apetece simplificar ou generalizar e como nao me pagam fortunas para dizer disparates, vou abster-me de seguir os passos da familia Portas.
Este nao e o meu mundo e eu sinto isso em cada pequeno pormenor.
Nao existe a nocao de espaco publico como algo comum a todos e portanto a respeitar. O espaco publico e aqui o contraponto do espaco privado, algo que nao e nosso e que portanto nao temos de preservar. Praticamente nao ha caixotes de lixo na rua o que faz com que toda a rua seja um caixote de lixo. O mesmo e extensivel a varias zonas de praia maioritariamente frequentadas por indianos. A remota sugestao de que isso pode, a prazo, comprometer a industria do turismo, principal fonte de riqueza em Goa, e incompreensivel para a maior parte dos interlocutores.
Comentario do dono do hotel de Calangute onde estou a ficar: "Na Europa as pessoas nao sao felizes porque quando chegam a casa do trabalho ainda teem de ir cozinhar ou arrumar a casa. Na India o trabalho custa pouco e portanto e facil ter alguem para fazer essas coisas." Este senhor obteve nacionalidade portuguesa, gracas a qual 3 dos seus 4 filhos estao em Londres. Segundo ele, so pensam em voltar a Goa.

Ontem estive a almocar com Aurora Couto, autora do livro "Goa: a daughter's Story" e com o seu marido, Alban Couto, que integrou o primeiro governo de Goa a seguir a libertacao.
Dois intelectuais refinados que frequentaram universidades britanicas, liberais de esquerda, cultos e simpaticos, que nao pararam de insistir comigo para que me fixasse em Goa. O senhor ate queria comecar a prospeccao de uma noiva de boas familias e insistiu para que eu lhe enviasse o curriculo quando chegasse a Portugal.
O discurso e o habitual: Goa e o estado com melhor qualidade de vida, menor desigualdade social, menos tensoes religiosas, melhores infra-estruturas e servicos publicos, pessoas mais hospitaleiras e educadas, da India. O que me fez tremer ao imaginar como sera efectivamente o resto.
E tornou-se-me impossivel continuar a conversa para la de um certo ponto. Como explicar a estas pessoas que nunca conseguiria viver num sitio onde ter criados (dos que vivem nas traseiras da casa dos patroes e deles dependem para tudo) e absolutamente incontornavel? Onde a pobreza e tao natural como a agua das moncoes? Onde ser letrado e minimamente culto e um claro sinal de distincao social e de pertenca a elite?
Como explicar-lhes que aquilo que a eles parece ser o melhor da India (a possibilidade de levar uma vida absolutamente despreocupada a custa dos outros) e o que me parece absolutamente insuportavel? Como explicar-lhes que os valores a partir dos quais observam a generalidade dos fenomenos sociais sao incompativeis com os meus e, digo eu, a longo prazo, insustentaveis?
Nem sequer comecei, porque nao sei onde poderia acabar. E estas eram as pessoas mais viajadas e informadas, cosmopolitas e cultas, consideradas progressistas, que se opoem ao crescente comunitarismo religioso, especialmente protagonizado pelo movimento Hindutva (os integristas Hindus que compoem a direita do espectro politico, nomeadamente do BJP, partido que esteve no poder entre 1998 e 2004).
Para eles nao havia qualquer relacao entre a profunda desigualdade social e pobreza e as explosoes de violencia religiosa dos ultimos anos. Ou o crescimento explosivo do turismo, da construcao civil e da emigracao de indianos de outros estados para Goa. Completamente na defensiva, a unica coisa que esta elite intelectual goesa, com significativo poder politico e influencia social, consegue fazer e escandalizar-se e lamentar-se pelo que esta a acontecer a sua volta, com o fatalismo de quem espera pelo fim.
De resto, a explosao do comboio entre Deli e Lagore foi para os Goeses equivalente a algo que se passou noutro planeta. Mesmo sabendo-se que existe o perigo real de atentados em Goa, nomeadamente em Anjuna, pequeno colonato turistico israelita. O espaco ocupado nos jornais foi minimo. Se ontem o concerto realizado na praia de Calangute nao tivesse terminado duas horas antes do habitual, dir-se-ia que nada se passa.

To cut a long story short, o fascinio exotico pela India e morbido e doentio. Reter apenas aquilo de que se gosta e intelectualmente desonesto. Considerar uma terra onde se morre de fome um sitio de grande riqueza espiritual merece uma estalada.
A atitude oposta, de encarar com arrogancia uma cultura milenar, descrever este pais como uma imensa mancha de subdesenvolvimento e atraso, sublinhar todas as diferencas como fossos intransponiveis, merece identico desprezo.
Como nada fica parado, a unica atitude que me parece conter a hipotese de uma verdadeira comunicao e reconhecer as possibilidades e os desejos de emancipaco, os varios pontos de ruptura da ordem vigente, que aqui, como em todo o lado, nao deixam de existir. Mais uma vez a lingua revela-se aqui o factor central. Sem ela, tudo sera perdido na traducao.

Publicado por [Rick Dangerous] às fevereiro 21, 2007 07:33 AM

Comentários

Ó meu, curte mas é o goa trance e não penses mais nisso.

Publicado por [Anónimo] às fevereiro 21, 2007 06:33 PM

Tiras-me a vontade de ir à India... eu sempre disse que era a mais importante viagem que queria fazer.

Publicado por [Anónimo] às fevereiro 21, 2007 10:42 PM

"Como explicar a estas pessoas que nunca conseguiria viver num sitio onde ter criados (dos que vivem nas traseiras da casa dos patroes e deles dependem para tudo) e absolutamente incontornavel? Onde a pobreza e tao natural como a agua das moncoes? Onde ser letrado e minimamente culto e um claro sinal de distincao social e de pertenca a elite?"

Publicado por [experimenta ir a Cascais] às fevereiro 22, 2007 05:22 AM

a diferença está precisamente no facto que tu foste convidado para um jantar em que insistiram contigo para ficar e casar etc e que merece um olhar diferente. É disso tipo de coisas q estava a falar. Nem eu nem o miguel portas seriamos alguma vez convidados a ficar em goa e com propostas de casamento. Topas?

Publicado por [renegade] às fevereiro 22, 2007 12:00 PM

Alright alrhgit alright that's exactly what I needed!

Publicado por [Bette] às setembro 30, 2011 02:42 PM

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