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fevereiro 10, 2007
A questão do referendo numa escola em Paris
Enquanto assistente de português numa Escola Secundária, no centro de Paris, uma das minhas funções é dar aulas ditas de civilização. Decidi dar uma aula, na última quarta feira, sobre o debate do aborto em Portugal (é preciso ter em conta que a maior parte destes alunos são franceses filhos de emigrantes portugueses, muitos deles bilingues). Para tal, reuni uma série de materiais para tornar a aula mais atractiva. Entre os quais, alguns documentos do YouTube, folhetos de propaganda do SIM e do não e por fim documentos mais profundos sobre a questão do aborto.

Organização da aula: primeiro, propus aos alunos a leitura dos documentos sobre o panorama actual e mundial dos países com leis mais proibitivas ou mais liberais em relação ao aborto; segundo, mostrei um folheto do Movimento dos Jovens pelo Sim e outro do Blog do não (aquele do “Salvem os bebés das baleias, pandas, focas, koalas, ursos... E EU?”); e por último mostrei o debate do “Assim não” e “Assim SIM” no You Tube culminando no vídeo humorístico do Gato Fedorento sobre o mesmo. Desculpem o detalhe da aula!
Tentei a cada etapa desta aula exaltar os ânimos dos pequenos (de 16 a 19 anos), instigando sobre os argumentos do sim e do não e incitando ao debate. Resultado: Inércia, Torpor, Preguiça, Indiferença, o que quiserem no âmbito destes sinónimos!!!

Na minha opinião, a justificação para o acontecido está associada com o facto que em França a promulgação da “loi Veil” se efectuou no ano de 1975: “Après une longue procédure législative et des débats houleux, l'Assemblée nationale vote le projet de loi, présenté par la ministre de la Santé Simone Veil, dépénalisant l'interruption volontaire de grossesse (IVG ). L'IVG est autorisée dans les dix premières semaines de grossesse.
- 1975: Promulgation de la "loi Veil", le 17 janvier, pour une période de cinq ans. Elle sera reconduite à titre définitif en 1979.
- 1982: La "loi Roudy" instaure le remboursement de l'IVG par la Sécurité sociale.
- 1988: Autorisation de la pilule abortive RU 486. Son usage, très encadré, est réservé à des centres agréés.
- 1993: La "loi Neiertz" crée le délit d'entrave à l'IVG . Les premières peines de prison sont prononcées contre les membres d'un commando "anti-IVG ".
- 1999: Mise en vente libre de la "pilule du lendemain", le contraceptif d'urgence Norlevo
- 2001: Réforme de la loi de 1975 par Martine Aubry. Elle fait passer le délai de recours à l'IVG de dix à douze semaines et autorise les mineures à obtenir une IVG sans autorisation parentale, mais accompagnées d'un adulte de leur choix. »
Portanto, tendo em conta que para estes pequenos o direito ao aborto é um dado adquirido, a pespectiva de debate é quase nula. Antes da aula para mim isto não fazia sentido. No entanto, eles esquecem-se, sem querer ser muito nostálgica, que no país onde eles nasceram e vivem esse direito foi adquirido de uma forma bastante lancinante e atroz sobretudo para as mulheres. Segundo a minha professora, que esteve envolvida nesse movimento de apoio à “loi Veil” (embora tenha insistido sobre o facto de não se encontrar na fileira política de Simone Veil, na época ministra da saúde num governo de direita), Simone Veil e as suas seguidoras foram acusadas de serem umas “avorteuses” no Parlamento Francês e na opinião pública, acumulando-se ataques ainda mais pungentes sobre a vida pessoal da ministra.

Enfim, numa das aulas do Miguel Vale de Almeida, discutíamos sobre os movimentos gays e sobre a luta que estes últimos desenvolviam no sentido de legalizar o casamento entre homosexuais. Uma das questões colocadas era sobre o porquê de quererem legalizar uma prática tão conservadora e de tradição homofobica... A resposta é tão simples como esta.... a mudança social pode ser a vanguarda da legislação de um Estado-Nação, mas o seu inverso também é verdade: tal é o exemplo do caso francês, a maneira como a lei do aborto passou “de fininho” pela consciência social e como actualmente passou a ser um dado adquirido (embora eles andem aí!!! e embora este acto continue a ser um tabou e culpabilizado social e moralmente!!!).

Não é justo que no nosso país o direito ao aborto com as melhores condições de acompanhamento fisico e psicológico, sem riscos e sem vergonhas tenha que ir a referendo!
Votaria de toda a maneira SIM, sem nenhum pejo de qualquer ordem. Um SIM bem feminista, ou seja, um sim que tem em conta o poder da mulher escolher o seu próprio modo de vida, controlar a sua sexualidade e fecundidade! Não é justo que o controlo sobre a sexualidade das mulheres continue a ser um elemento tão marcante da ordem patriarcal e conservadora da sociedade, diria mesmo uma alavanca da dominação masculina.
Não é justo que ainda hoje (sábado dia 10) hesite em apanhar o avião em direcção a Portugal para votar Sim com medote que o não com letra pequena ganhe.
Publicado por [Shift] às fevereiro 10, 2007 03:14 PM
Comentários
Finalmente! O SIM venceu! Também tenho pena de não ter apanhado o avião para ir votar!Resta saber se o não com letra pequena não fica arreigado à pequenês de uma mentalidade portuguesa que conheço bem demais...
Publicado por [carina] às fevereiro 11, 2007 08:36 PM
Também eu estava cheia de vontade de apanhar o avião para Lisboa! Felizmente não foi necessário :)
Um comentário à tua aula... Quem me dera ter tido, aos 16 - 19 anos, aulas assim! :)
Publicado por [Maria] às fevereiro 12, 2007 06:55 PM
Hey, subtle must be your mdidle name. Great post!
Publicado por [Chartric] às maio 26, 2011 10:39 AM
