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janeiro 26, 2007
Você tem-me cavalgado, seu safado!

O Assédio publicou o Manifesto sobre a disciplina legal do aborto (original aqui), da Associação das Mulheres Juristas que é, para mim, o melhor manifesto pelo SIM que já tive oportunidade de ler.
Destaco a capacidade para abordarem o "pudim" (recuperando a nomenclatura de um post anterior sobre esta matéria) ou, já que estou numa onda de recuperações de posts, levantarem o tapete, enfrentarem a merda e afirmarem «hum, isto tem de ser limpo!».
«(...) a maternidade não é racionalmente concebível como uma obrigação ou um equivoco, que a procriação e a gravidez são situações tão livremente eleitas que não podem ser entendidas como contrapartida ou castigo decorrente do acto sexual, e logo que, não deverá ser permitida uma imposição da gravidez mediante uma cominação penal, transformando num processo obrigatório aquilo que é um acto livre e voluntário.
Perante um direito à maternidade, assim configurado - alheio a todo o sentido da obrigatoriedade - ante a procriação e maternidade, caberá ás mulheres optar livremente, aceitando ou rejeitando a maternidade.
Acresce ainda que a defesa dos direitos fundamentais já referidos dá relevância constitucional à oposição, que a mulher queira aduzir, à continuação da gravidez, na medida em que a proibição do Aborto, acarretando uma compulsão à maternidade, afecta aqueles direitos, e através dela o Estado nega a liberdade individual de cada mulher poder configurar a sua própria vida, introduz-se na sua esfera da sua intimidade e obriga-a a aceitar as condições de vida que acompanham a maternidade, afectando o livre desenvolvimento da sua personalidade.
Deste modo entende a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas que, nos casos que a interrupção da gravidez se apresenta como uma situação de colisão de direitos, entre uma vida humana em formação e os direitos fundamentais da pessoa humana, a imposição da gravidez mediante cominação penal obsta à realização daqueles direitos, e como tal está ferida de inconstitucionalidade.»
De mais nenhum movimento pelo SIM vi esta clareza e este enquadramento. Pelo contrário, e nunca é demais dizê-lo, centram-se no tacticismo e recusam o desconforto de tratar uma questão de género como uma questão de género, preferindo tratá-la como uma questão penal e de saúde pública. E às vezes parece que, na realidade, estão a cavalgar a situação, ao serem claros na restrição do discurso e na promessa de que, depois da vitória do SIM (se houver vitória do SIM), logo se fala disso. Daí o verso que dá o título:
Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.
Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.
Alexandre O'Neill, De Ombro na Ombreira (1969)
Publicado por [Joystick] às janeiro 26, 2007 03:42 PM
Comentários
assim com repeticao e tudo?
Publicado por [renegade] às janeiro 26, 2007 04:36 PM
Por acaso sim, mas como também não tinha citado a parte integral que me interessava, acabei por rectificar essa situação aqui. Mas vai lá ver ao original.
Publicado por [Joystick] às janeiro 26, 2007 04:42 PM
Real brain power on disaply. Thanks for that answer!
Publicado por [Denisha] às maio 26, 2011 03:13 AM
