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janeiro 21, 2007

Profissão: Porteira!

Encontrava-me a terminar o livro « Deux heures de lucidité » (Noam Chomsky. Entrevistas feitas por Denis Robert e Weronika Zarachowicz. 2001. Les arènes), quando, a campainha tocou. “Êtes-vous la concierge?”, respondi prontamente e de maneira áspera: NON.


Depois das duas horas de lucidez, passei mais duas horas de depressão. Reflecti no porquê deste estado emocional, e dei-me logo conta que tinha ficado muito ofendida com tal evento.
Ou seja, o facto de ter um apelido português e desse apelido estar exposto no prédio onde moro fez com que um indivíduo não hesitasse em tocar à minha porta sem o mínimo de pudor. Poderão alguns dizer “menos mal se as discriminações se resumissem a este tipo de situação”. No entanto, este tipo de situações demonstram o que se passa nos bastidores de uma sociedade que se diz de “acolhimento”, mas a que eu chamaria intuitivamente de sociedade de instalação.

Um questionário distribuído pelo “Syndicat National des Gardiens d’Immeuble et Concierges » em França mostrou que mais de 2/3 das pessoas que exercem a profissão de porteiro são mulheres. Destes, 60% são portugueses, 30% são franceses e 10% são espanhóis (Ribeiro, 1997, Les familles portugaises et la société française, Edition W). Queiramos ou não, os serviços desempenhados pel@s porteir@s são associados directamente ao conceito de “servilismo” herdado da escravatura. Não podemos esquecer, por outro lado, que estas pessoas habitam nas “loges de concierge”, muitas vezes caracterizadas por serem espaços exíguos. Aliás, conta a história dos porteiros na região de Paris que esta profissão sempre foi relegada pelos autoctones às pessoas vindas do exterior. Num primeiro momento, foram as migrantes camponesas da Bretanha que ocuparam em massa este serviço, que foi paulatinamente relegado às imigrantes de Espanha e seguidamente às portuguesas.


Em resumo, fiquei revoltada pelo “Êtes-vous la concierge?” porque ouço dizer em voz alta, tanto pelas autoridades francesas como pelas autoridades portuguesas ou mesmo por certos indivíduos actores da imigração portuguesa em França, que a condição dos imigrantes portugueses é um exemplo bem sucedido da integração francesa.
É um facto, as mulheres portuguesas em França têm a mais elevada taxa de actividade profissional quando comparadas com outras mulheres imigradas em França. Mas esta profissionalização faz-se pelo intermédio de profissões consideradas na cauda da hierarquia socio-profissional e profissões muito segmentadas ao nível do género. Não afirmarei que a integração das portuguesas em França é bem sucedida ou mal sucedida, nem muito menos penso que a integração seja um conceito susceptível a avaliações desta ordem. Apenas direi para terminar que a integração das mulheres portuguesas em França está envolta em mecanismos ligados a uma tripla discriminação: de género, de classe e de origem geográfica.

Publicado por [Shift] às janeiro 21, 2007 06:43 PM

Comentários

Trés Bien! Bienvinu ou club mediterrané

Publicado por [Anónimo] às janeiro 21, 2007 11:34 PM

Sim, eu lembro-me dos olhares de estranheza quando dizia que era portuguesa e estudante. Algures esta combinação parecia não fazer sentido...

Publicado por [Helena Romao] às janeiro 22, 2007 12:21 AM

As fotos são bestiais. Grande Posta!

Publicado por [Anónimo] às janeiro 22, 2007 11:45 AM

São os estéreotipos da nossa Nação, boa semana

Publicado por [Barão da Tróia] às janeiro 22, 2007 04:30 PM

Passem pelo nosso blog e deixem a vossa opinião. Se quiserem enviar a vossa opinião seja pelo SIM ou pelo NÃO enviem para pormirandela@hotmail.com

blog Por Mirandela, o caminho certo da cidadania

www.pormirandela.blogs.sapo.pt

Publicado por [Por Mirandela] às janeiro 22, 2007 10:49 PM

Por Mirandela????!!!!!

Publicado por [Anónimo] às janeiro 23, 2007 02:19 PM

belo post, muito bem-vinda shift!

Publicado por [chuckie egg] às janeiro 23, 2007 03:41 PM

os Bragaça Motherzzzz destacaram este post.

Publicado por [Anónimo] às janeiro 24, 2007 06:55 PM

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