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dezembro 06, 2006

Bom senso e bom gosto

"Uns jovens com as prioridades no sítio - inscrição numa caixa Multibanco na Universidade Nova."

Presume-se que Pacheco Pereira terá utilizado um daqueles telemóveis muito à frente que tiram fotografias. A hipótese de andar sempre acompanhado por uma máquina digital também se coloca. Em todo o caso, os jovens estudantes da Nova nada têm a aprender com Pacheco Pereira no que toca a febres consumistas.

O mais interessante em todos os monólogos decadentistas em que o Abrupto é fértil - "Claro que ninguém vai ao teatro, claro que acabaram os cafés (pelo menos em Lisboa), claro que se desertificaram os bairros, claro que acabou a Lisboa dos anos 60, tão íntima como provinciana, onde éramos os absolutos cosmopolitas, exactamente porque os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da "canalha" anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente. Eles entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snackbars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows, entraram pela "cultura" e pela política e não querem o que nós queremos, ou melhor, o que nós queríamos por eles. O acesso das "massas" ao consumo material e "espiritual" faz o mundo de hoje, aquele que é dominado pela publicidade, pelo marketing, pelas audiências, pelas sondagens. É um mundo infinitamente mais democrático, mas menos "cultural" no sentido antigo, quando a elite, que éramos nós, decidia em questões de bom senso e bom gosto." afirma-se a dada altura a propósito da entrevista de Jorge Silva Melo à RTP - é que o habitual à vontade de Pacheco Pereira para atribuir responsabilidades e encontrar culpados se desvanece completamente.

A culpa é de uma nebulosa chamada democratização, para a qual terá contribuído, indistintamente, uma suposta «geração de 60». E o que fica é uma imagem desfocada de muita gente de barba ou patilhas, calças à boca de sino de evidente mau gosto, estruturalismo francês e Pop britânica debaixo do braço, a cozinhar a sociedade de consumo nos cafés das Avenidas Novas, criando os seus próprios coveiros, as tenebrosas «massas de consumidores», os «jovens com as prioridades no sítio».

Mas o que fica, acima de tudo, é uma indistinta linha recta que vai da Revolução até hoje, sem qualquer discontinuidade ou ruptura, como se não tivesse existido Cavaquismo ou fundos europeus. Como se tudo isto que nos rodeia resultasse da expressão directa da vontade popular. Como se aquilo a que Pacheco Pereira chama a «sociedade de consumo» e a «democratização massificada» não se tivessem erguido sobre os cadáveres de inúmeras lutas, não fossem politicamente construídas e não se articulassem com uma restauração, parcial mas efectiva, de uma ordem muito antiga, contra a qual, precisamente, a Revolução embateu com um estrondo que ainda ecoa.

Como se tivesse em tempos existido História, para agora deixar de existir. Como se só Pacheco Pereira e os amigos com quem bebe café conhecessem o sítio certo para as prioridades.

Publicado por [Rick Dangerous] às dezembro 6, 2006 03:41 PM

Comentários

"Como se só Pacheco Pereira e os amigos com quem bebe café conhecessem o sítio certo para as prioridades" - tenho a certeza que tu também achas que só tu e os teus amigos é que têm as prioridades no sítio. Confirmas?

Publicado por [hein?] às dezembro 6, 2006 06:35 PM

Grande post. Boa pergunta do heim?

Publicado por [Anónimo] às dezembro 7, 2006 11:55 AM

essa caixa multibanco é cheia de historias

Publicado por [Anónimo] às dezembro 7, 2006 01:01 PM

Como amigo do rick dangerous posso confirmar que só eu e ele e mais três ou quatro pessoas é que temos as prioridades no sitio. O resto das pessoas contenta-se com deixar comentários espirituosos nos blogs.

Publicado por [tiagomao] às dezembro 8, 2006 08:36 AM

Não confirmo nem desminto. Antes pelo contrário...

Publicado por [Rick Dangerous] às dezembro 14, 2006 04:09 PM

Não confirmo nem desminto. Antes pelo contrário...

Publicado por [Rick Dangerous] às dezembro 14, 2006 04:12 PM

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