« E para quando a Madeira? | Entrada | Arte Urbana »
dezembro 15, 2006
Agulhas de croché e pimenta moída

Na campanha contra a despenalização do aborto há uma tendência para a dramatização que se aproxima inevitavelmente da demagogia mais populista.
Uma frase como "Dinheiro dos nossos impostos para financiar clínicas de aborto" transporta o seu leitor para um universo paralelo onde tudo se torna possível. Tipo "Dinheiro dos nossos impostos para financiar uma religião de velhos, beatas e maluquinhos, pagando ainda o salário dos padres que ensinam religião e moral?". Ou então outra, um pouco mais comezinha, tipo "Dinheiro dos nossos impostos para alcatroar uma estrada de Rio Tinto?". Há, está claro, aquela mais baixa, tipo "Dinheiro dos nossos impostos para salários e indemnizações a administradores nomeados pelo último governo e exonerados por este?". "Dinheiro dos nossos impostos para levar os clubes de futebol da Madeira às competições europeias?".

Mas é claro que a única pergunta que vale a pena colocar é "Dinheiro dos nossos impostos para financiar associações de tias e reaccionários que combatem o uso de preservativos, recomendam nas escolas a abstinência e métodos contraceptivos «naturais», defendem a Família (nomeadamente a sua) e estão realmente a chamar assassinas às mulheres que abortaram?".
Porque esta gentinha, que está sempre a falar dos países civilizados e desenvolvidos como exemplo a seguir e estatuto a alcançar, consegue realmente dar a entender nesta campanha que todos os países da UE, menos a Irlanda, a Polónia e Portugal, legalizam o homicídio de crianças indefesas. Torna-se quase impossível compreender como é que não exigem o encerramento das fronteiras e o isolamento mais severo em relação a todos esses países onde a barbárie grassa e as mulheres podem utilizar clínicas financiadas pelos impostos de tod@s para recorrer gratuitamente ao aborto.

Afinal de contas, em questões de defesa da vida humana, não deveria haver qualquer tipo de concessão ou compromisso. E a única posição coerente, para quem tão facilmente julga e condena as escolhas alheias, seria exigir a prisão por homicídio de todas as mulheres que abortaram e de tod@s os que as ajudaram a fazê-lo.
Mas a coerência não é propriamente o forte da reacção. A missa de domingo chega-lhe e sobra-lhe.

Publicado por [Rick Dangerous] às dezembro 15, 2006 03:37 PM
Comentários
este texto devia ser colado nas paredes todas, especialmente nas proximidades das igrejas.
Publicado por [renegade] às dezembro 15, 2006 05:08 PM
Gostei, gostei, gostei.
5 Estrelas!!!!!
Publicado por [Francis] às dezembro 15, 2006 05:13 PM
Na Mouche.
Hoje estive a recolher assinaturas para formalizar um movimento pelo sim à despenalização da IVG.
Apesar de ser Lisboa, não gostei lá muito da receptividade à coisa. Esperam-nos 2 meses de trabalho pela frente.
Se o Não ganha outra vez é o fim da picada!
Publicado por [Anónimo] às dezembro 15, 2006 07:52 PM
