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outubro 12, 2006
Um filme e um livro
Tous étaient frappés

Uma senhora na casa dos quarenta fala sobre o drama que é atarraxar uma tampa num boião, 5 dias por semana, 7 horas por dia, desde os 17 anos de idade. Ganha bolhas e queixa-se à encarregada. "O que quer que eu faça? Meta umas luvas". Mete as luvas, mas as mesmas são maiores que a mão e metem-se entre a tampa e o frasco. Tem metade da produtividade e leva na cabeça. Se não se porta bem... Tira as luvas e colecciona bolhas e dores nos pulsos, braços e costas. Os que se portam bem têm trabalhos mais fáceis, fora das linhas de montagem ou nas embalagens. Esta não sai de onde está e tem crises de choro. Fala com tanta rapidez que percebemos que está à beira do colapso nervoso, é a primeira observação da psicóloga ouvinte: "Fala sempre assim tão rápido?!" Os testemunhos são de consultas de patologias psicológicas do trabalho e vemos pessoas acabadas, profundamente deprimidas e com problemas psicossomáticos com razões laborais. Há a mulher da linha de montagem mas há também o director de vendas com um esgotamento nervoso e outros casos.
O documentário foi exibido ontem, na Festa do Cinema Francês. Em princípio não terá distribuição em Portugal. Falta-lhe qualquer coisa ao nível da narrativa, mas parece ser a opção ética e estética da dupla de realizadores. É um documentário cru, duro, nervoso como os intervenientes, mas é verdadeiramente um documento sobre o sofrimento no trabalho.
Fazer as pazes com a literatura
Acabei de ler "Adeus às Armas". É a nova edição dos Livros do Brasil. Nunca vi, em toda a minha vida, um livro com tantas gralhas, erros ortográficos e sintácticos. Queixei-me à editora. Dizem que me devolvem o dinheiro. Acho bem que o façam. Não sei se por causa disso - o Hemingway não merecia uma coisa destas -, acabei por não gostar nada do livro. A história também não me emocionou muito. Não percebo como é que a enfermeira independente, emancipada e voluntária na I Guerra Mundial se torna estúpida e lamechas ao apaixonar-se pelo protagonista, e passa a incluir a palavra "amor" - nas suas variantes, amo-te, amas-me, etc. - em todas as frases que profere quando, antes (do infortúnio do enamoramento), tinha uma fluência impressionante sobre as razões da guerra.
Bem, isto tudo para dizer que, quando acho que a literatura me deixou ficar mal, porque não compensou o tempo que investi nela, faço as pazes lendo Saramago.
Publicado por [Joystick] às outubro 12, 2006 12:04 PM
Comentários
Saramago é o Português do Séc. XX.
Devemos ser o país que menos acarinha o seu prémio Nobel da literatura.
Publicado por [Anónimo] às outubro 13, 2006 05:54 PM
I supopse that sounds and smells just about right.
Publicado por [Xexilia] às novembro 4, 2011 02:45 PM
