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outubro 20, 2006

As pernas curtas de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira tem dedicado posts e artigos à ocupação do Rivoli, com uma regularidade que apenas se explica pela existência de um programa político apontado àquilo a que chama, com algum desdém, «cultura subsidiada».
Os ocupantes do Rivoli, com a habitual ligeireza dos «criadores culturais», têm feito o possível para caber nas suas caricaturas, com as suas reivindicações parciais e afirmações melodramáticas, que gastam em adjectivos e figuras de estilo aquilo que economizam em inteligência.

Esta ocupação, que desde logo se saúda por contrariar o espírito bafiento de paz social e conformismo que reina neste olho do cu em forma de país, vem demonstrar desde logo que não pode existir uma crítica consequente da privatização dos espaços culturais que não seja uma crítica consequente da cultura. Em que palavras como «público», «autor», «criação» e «produto artístico» não sejam utilizadas de forma gratuita, como se o seu significado se limitasse a exprimir ou a descrever uma realidade existente e não viesse, pelo contrário, perpetuar essa realidade.
Se falamos de uma «produção cultural» e se incorporamos e reproduzimos no nosso discurso todas as categorias de uma «indústria cultural», porque nos havemos de revoltar contra o facto dessa indústria ser gerida, tal como todas as outras, segundo parâmetros de mercado?

É deste tipo de limitações teóricas que Pacheco Pereira, sabichão que é, se aproveita para combater o «elitismo cultural» dos ocupantes, afirmando em contrapartida a liberdade do «público» para gastar o seu dinheiro nos «produtos culturais» que mais lhe interessam. As suas pernas são porém mais curtas do que seria necessário para semelhante passo, como se vê pegando apenas em duas questões suscitadas pelos seus textos.

No Porto, nos últimos 20 anos antes do 25 de Abril, o "povo" dispunha de espectáculos de teatro, quer "sério", quer de revista, com a vinda regular das companhias de teatro de Lisboa ao Rivoli e ao Sá da Bandeira. Mais raramente havia ópera, é certo que óperas mais "fáceis" como O Barbeiro de Sevilha, o Rigoletto ou a Cavalaria Rusticana, mas era ópera e os espectáculos conheciam enchentes. A maioria destas iniciativas era de empresários do teatro e a presença do Estado fazia-se sentir essencialmente através da FNAT e da Emissora Nacional que organizavam espectáculos populares e baratos. Havia um défice face a Lisboa, mas não era o deserto que hoje se pensa.

Esta afirmação, que explora a inexistência de um jornalismo crítico em Portugal, corresponde escassamente à realidade.
Apenas para dar um exemplo, retirado, não de um jornal, mas do boletim da União dos Grémios do Espectáculo (esses furiosos «elitistas culturais e adeptos dos subsídios», presume-se), nº123, de Novembro de 1964, a propósito da frequência dos cinemas do Porto aquando das estreias de filmes portugueses : "Recordamos ainda que, há mais de trinta anos, é insignificantíssimo o número de bilhetes que se vendem no Porto, na véspera de estreia de qualquer espectáculo, salvo a meia dúzia de excepções por ano - futebol e carnaval."

Como facilmente se vê, o período de ouro de actividade cultural no Porto na época pré-subsídios, que Pacheco Pereira situa algures entre 1954 e 1974, é uma ficção. Não seria grave, se Pacheco Pereira não soubesse estar fazer uma afirmação deste género na qualidade de Historiador (com h grande), para reforçar as suas posições políticas.

A segunda questão, que é um pouco mais ampla e convida a outras reflexões, tem a ver com o próprio ganha pão de Pacheco Pereira que, quando não é deputado (subsidiado por todos nós) ou colunista (subsidiado, de forma mais que artificial em termos meramente mercantis, por Belmiro de Azevedo), dá aulas em universidades, produzindo um «saber» que não é consumido pela maior parte da população que o paga.
Sabemos bem que Pacheco se defenderia com a necessidade das Universidades assegurarem receitas próprias. Mas estaria ele em condições de atacar da mesma maneira professores universitários que ocupassem uma Universidade pública ameaçada de privatização?
Parece-me evidente que teremos de esperar ainda alguns anos para ver acontecer semelhante coisa.
Muito mais haveria para dizer, mas este assalariado da «indústria cultural» tem coisas importantes para fazer. Remodelar a sala, por exemplo...

Publicado por [Rick Dangerous] às outubro 20, 2006 06:53 PM

Comentários

muito bom

Publicado por [Anónimo] às outubro 23, 2006 06:59 PM

A imagem identifica-se plenamente com a pessoa em questão. Se equipado de patins em linha, conseguiríamos entender com facilidade o percurso de Mao Tsé-Tung a Ratzinger. Com um pouco de sorte, poderemos beneficiar da sua tradicional e profunda isenção intelectual num qualquer programa de TV, explicando os segredos de Fátima e outros mistérios correlativos. Deste modo,logo que termine a sua brilhante carreira politica, poderá candidatar-se a qualquer vaga que surja na Opus Dei.

Publicado por [joão louro] às maio 17, 2010 04:50 AM

Always the best content from these porgdiious writers.

Publicado por [Adelie] às novembro 4, 2011 04:39 PM

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