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outubro 05, 2006

8:36

“O Henrique olhou o seu relógio «Cauny Prima». «Tenho de ir», disse ele. «Mas oiça. De todos os muitos trabalhos que passei ao serviço da Revolução, não houve nada que me fizesse mais cabelos brancos do que romper com o Partido Comunista Português mai-la sua Nova Linha que foi velha desde o princípio, porque os trabalhadores marimbam-se para os sindicatos fascistas. E os camaradas que ficaram no Partido não podem nem querem saber que eu saí pelas mesmas razões que me levaram a entrar. Veja você, a dificuldade que impede tanto camarada descontente de sair do Partido é que se sai de lá sem se ter para onde entrar. Mas eu, a partir do momento em que vi claro que esta coisa de Partido Revolucionário Único é voltar à vaca fria que envenenou a sociedade porque afoga a inteligência, das duas uma: ou deixava o que tinha conseguido salvar durante o meu crescimento ou saía do Partido. Não é numa religião disfarçada de Partido Revolucionário que está o caminho. Sendo as coisas assim, restava-me pôr a trouxa às costas e partir à confiança. Há grandes estradas para o indivíduo que quiser ser livre e não tiver medo de dormir onde calhar. Sinto que há por esse mundo cada vez mais homens à procura dessas estradas. E eu tinha de encontrar alguns, mesmo vivendo aqui, cercado de mar por todos os lados menos por um, onde está a Espanha. Até logo, amigo.»

O Henrique saiu do carro. Atirou com a porta e foi-se embora sem olhar para trás.

«Entrecolites, Fedrico Nites», citou alto o homem sem saber porquê. Olhou para o relógio. Eram oito horas e trinta e seis minutos.”

Nuno Bragança, Directa, 77

Publicado por [Renegade] às outubro 5, 2006 11:23 AM

Comentários

O Bragança! "A Noite e o Riso" é dos melhores romances da Literatura Portuguesa.
Um abraço

Publicado por [Tiago] às outubro 5, 2006 08:44 PM

Também acho. E tinha lido algures num comentário crítico que este era um livro falhado. Lembro-me porque a coisa vinha apresentada como opinião autorizada. Discordo totalmente. Este é um relato do caralho de uma noite de conspiração política e só perde fulgor no fim. Vale muito a pena.

Publicado por [renegade] às outubro 8, 2006 12:58 AM

Aliás, de um dia e de uma noite.

Publicado por [renegade] às outubro 8, 2006 01:00 AM

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