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julho 10, 2006

Em defesa da batota: o 'fair-play', cavalo de tróia moral da racionalização mecanicista no futebol

Um aspecto do último campeonato do mundo indicia uma mudança mais rápida no futebol profissional do que eu julgava. Estou a pensar na introdução do controlo do jogo através de imagens de vídeo. Os franceses vencidos na final queixavam-se que a cabeçada do Zidane ao Materazzi só foi sancionada por indicação do 4º árbitro após consulta às imagens em repetição. A ser assim, argumentaram, o árbitro não podia ter decidido a expulsão dado que nem ele nem nenhum dos outros três árbitros presentes terão "visto" em tempo real o que se passou. Com toda a razão afirmaram que Zidane devia ter continuado em campo. A equipa de França teria ganho o jogo (isto não disseram mas pensaram). A selecção italiana não teria ganho à Austrália com um penálti simulado e não seria campeão do mundo.

É interessante pensar que, ao mesmo tempo que resiste à introdução das imagens de vídeo como critério de julgamento, a FIFA apostou decididamente numa outra política que vem criar as condições ideais para essa introdução: a defesa do que designam por 'fair-play'. A FIFA quis que este fosse o campeonato do 'fair-play'. Atribuíram-se prémios em função do fair-play, deu-se um sinal aos fazedores e consumidores de opinião que este passava a ser um aspecto decisivo do jogo e, ainda mais importante, os árbitros foram instruídos para guiar a sua visão do jogo e as suas decisões segundo o 'fair-play'. Ora, tenho para mim que a interpretação que se quer fazer desta expressão deve tudo à sua origem anglo-saxónica e ao futebol quadrado, mecanizado, falho de inspiração, falho de alegria e de arte, apoiado no pontapé para a frente e na capacidade atlética do jogador, e deve muito pouco a um outro tipo de futebol com espaço para a simulação, o toque a mais, o despique no um-para-um, a capacidade de ver a bola como um objecto em harmonia com a sensibilidade criativa do jogador, enfim, com espaço para a batota também (quanto isto deve a uma visão 'luso-tropicalista' do futebol não vem aqui ao caso).

Claro que o futebol profissional é uma actividade económica orientada para o lucro, ponto. E progressivamente o critério económico tem vindo a invadir todos os aspectos ligados ao jogo, do merchandising à táctica, do treino à circulação de trabalhadores (jogadores etc). No dia em que o 'fair-play' seja imposto a golpe de televisão esgota-se um dos últimos bastiões da subversão possível no jogo de futebol: a batota.

Publicado por [Renegade] às julho 10, 2006 02:03 PM

Comentários

Fair play à Francesa. tou aqui a pensar como será o fair play do Irão ou de Afeganistão, com Kalash ou RPG. Bom post

Publicado por [Barão da Troía] às julho 11, 2006 11:45 AM

tas quase la...lev mais um livrinhos...

Publicado por [Anónimo] às julho 14, 2006 10:34 PM

HOLA COMO ANDAS TROLO

Publicado por [gabriel] às outubro 28, 2007 10:44 PM

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