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novembro 03, 2005

Era uma vez uma insurreição


Os acontecimentos das últimas seis noites em Clichy-sous-Bois vieram denunciar a a paz podre que se vive nas principais metrópoles europeias.
A violência parisiense não tem nada de excepcional, particular, inexplicável ou lamentável.
Ataques a esquadras, edifícios públicos e centros comerciais - à ordem pública em geral - demonstram o quão consciente é a raiva intuitiva dos jovens do banlieu parisiense. E deixam adivinhar uma inteligência semelhante nos ataques que por certo se seguirão, noutras ruas, praças e motins. Este ódio, soletrado em todas as línguas, não carece de tradução. Ça ira!

Há já alguns meses que a polícia intensificou o controlo nos subúrbio parisienses, com o pretexto da segurança pública, no seguimento dos incêndios de Julho em prédios ocupados por emigrantes. Houve várias detenções de emigrantes ilegais e foi criado um clima de militarização do espaço, estilo pós-colonial. Sob as calçadas, a faixa de Gaza.
O que se seguiu - a repetição de confrontos de pequena escala até à morte de dois jovens que se refugiaram num depósito da EDF para escapar a uma perseguição policial e foram eletrocutados - só pode parecer estranho quem nunca viveu num subúrbio pobre de uma grande cidade, onde a maioria dos jovens opta por práticas difusas de ilegalidade (roubo, tráfico, etc...) como alternativa à formação profissional, ao desemprego, ou a um trabalho de merda.
O choque com o estado era já a vida quotidiana deste proletariado ilegal, as barricadas estavam presentes em todas as cabeças. Bastava uma faísca.

Lá onde se vivia na mais completa abundância e com as mais amplas protecções sociais, emergiram as contradições que o discurso do poder procurara ocultar, contrapondo à violência organizada da polícia as tácticas sempre clássicas e sempre actuais da guerrilha urbana.
Lá onde o estado, a cultura e os direitos sociais se combinaram para cimentar o consenso da mercadoria e a paz do capital - que não é senão a guerra quotidiana ao proletariado -, a questão social não podia deixar de se repropôr em bases sempre mais radicais, abrindo brechas no edifício republicano.

Da Cova da Moura a Paris, toma forma um sujeito do conflito social desintegrado e estranho a qualquer mediação política ou mediática. No indymedia de paris ninguém relata os acontecimentos. Ninguém sabe exactamente o que se está a passar. Os que o sabem não estão ainda dispostos a relatá-lo. As coisas belas e terríveis que terão para nos ensinar valem bem o seu silêncio actual.
Dentro de algumas semanas, quando tudo isto fôr passado, alguém poderá dizer "Era uma vez uma insurreição"?

Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 3, 2005 02:21 PM

Comentários

Bom, pelo que percebi os dois jovens que morreram não estavam a ser perseguidos pela polícia. Pensaram que estavam a sê-lo. E tal deveria ser o medo da polícia que se meteram dentro de um transformador da EDF. Este episódio tem, a meu ver, muito em comum com o de Jean-Charles de Menezes em Londres há tão pouco tempo.

É preciso dizer aqui que os transformadores da EDF costumam estar muito bem assinalados com avisos e sinais que indicam o perigo de morte por electrocução. O medo era tanto que eles entraram à mesma.

Também não se entende porque é que este transformador estava aberto e com livre acesso aos transeuntes. Nem ouvi aqui falar de pedir responsabilidades à EDF.
O governo assobia para o lado e chuta para canto. Recebe as famílias e promete ainda mais medidas securitárias. Ou seja, promete piorar o motivo que levou a toda esta luta.

Bom, este é um ponto de vista de alguém que sabe pouco mais do que quem está em Portugal. Não conheço aqueles bairros nem aquela realidade. Conheço alguma coisa de Aulnay para onde já alastraram as lutas: é uma pequena vila muito pacata, onde se cruzam pessoas dos 5 continentes. Nunca lá vi qualquer problema, nunca tive qualquer receio de lá andar mesmo à noite. Também nunca lá vi mais polícia do que em qualquer outro local da região parisiense que conheço.
Saint-Denis, outro dos locais para onde já alastrou o movimento e que é contíguo a Clichy, é já sobejamente conhecido pelos problemas de segurança e pelo excesso de policiamento.

Importámos tudo dos EUA. Quisémos fazer na Europa uns EUA pequeninos. Competir pela igualdade e não pela diferença. Importámos tudo, até os governos: o Sarkozy não é mais do que um aprendiz de Bush à eurocrata. Há muito tempo que as sucessivas medidas que tomou nos sucessivos postos que ocupou indicavam esta mesma direcção.

Ainda há 6 meses foi o episódio das prisões e repressão contra os estudantes do ensino secundário em luta contra a lei Fillon. Agora as banlieues.
Mas os franceses têm nestas lutas uma boa tradição. Por exemplo, em Marselha a greve dos transportes mantêm-se desde há mais de um mês, sem interrupção, sem cedências ao patronato.

Mas parece-me que já não se sai deste beco sem um novo mês de Maio como o de 68. Com o UMP ou o PS (que é neste momento um partido de direita como todos os PS europeus) é um beco sem saída.

Publicado por [Helena Romao] às novembro 3, 2005 11:03 PM

Descobri alguns bons artigos no Il Manifesto de dia 4: http://www.ilmanifesto.it/Quotidiano-archivio/04-Novembre-2005/art36.html

Um deles é uma entrevista com um dirigente de uma associação de imigrantes nas banlieues.Mas os restantes também valem bem a pena.

Publicado por [Helena Romão] às novembro 5, 2005 05:27 PM

What a great roesrcue this text is.

Publicado por [Zeal] às julho 7, 2011 03:23 AM

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