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julho 07, 2005
Uma terra sem amos

Toda a noite, no entanto, ele reviu a batalha. Dos montões de jacques mortos outros jacques se levantavam, com outros trajos, outras armas, impelidos à revolta pela mesma miséria que os oprimia. E sempre do fundo do horizonte, dos altos dos montes, dos sinos, desciam cavaleiros, que tinham armas diversas, gritos de guerra diversos, que carregavam, esmagavam os jacques, os deixavam mortos, sobre a grande lua cheia. Mas desses, pouco a pouco, mais pálidos, outros se erguiam, brandindo picaretas de mineiro, ferramentas de oficina, mostrando os seus andrajos, os filhos esfaimados, clamando justiça. E logo, a um brado do alto, fortes esquadrões desciam, trazendo à frente magistrados tougados, homens carregados de sacos de ouro, e em massa, caindo sobre os jacques, de novo os prostrava, os deixava no montão, que a lua, mais pálida e mais desmaiada, cobria de alvura e silêncio. E assim, indefinidamente, os jacques renasciam dos ossos dos jacques mortos, cada vez mais numerosos, até que a planície toda era uma sarça de braços magros, clamando, pedindo igualdade.E imediatamente outros esquadrões desciam, mais diminuídos, com um arranque menos vivo, hesitando, lançando golpes mais frouxos. Até que, por fim, os jacques eram tão inumeráveis, que da planície de estendiam aos montes, e a lua, que já desmaiara de todo, alumiava multidões disciplinadas, armadas, conscientes, que avançavam com ordem e ritmo. Os esquadrões, mandados contra essas cortes, fundiam-se como cera numa chama. Os jacques ocupavam a terra. Um último cavaleiro veio ainda e, derrubado, largou as armas, desapareceu. E sobre a terra só ficavam jacques, que cantavam em triunfo na frescura da noite clara.
Lendas de Santos, Eça de Queiroz
Publicado por [Paradise Café] às julho 7, 2005 02:02 AM
