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julho 01, 2005

Sou só eu que acho estranho...

...que Saboteur esteja quase à direita de Pacheco Pereira relativamente a uma greve?

[Uma pequena lembrança aos liberais: faz parte da força de uma sociedade livre e activa, como a que os liberais desejam construir, ter... greves. O conflito social não é um fim em si, mas um instrumento legítimo de defesa de interesses, por mais corporativos e egoístas que eles sejam, sem o qual as sociedades deixam de ser democráticas.

Segunda nota: não há greves eficazes sem dor, sem prejuízo, sem vítimas. Faz parte mesmo da possibilidade de eficácia de uma greve, que é o que uma greve pretende. A ideia que as greves só podem existir quando são apenas simbólicas, coloca efectivamente em causa o direito à greve. É natural por isso que os sindicatos as tentem realizar quando atingem ou mais pessoas, ou interesses de grupos, que possam levar governos ou empresas a recuar. O prejuízo social de uma greve – aos “utentes” dos transportes, aos alunos que vão fazer exames, etc – pode e deve ser discutido e utilizado no debate público contra os grevistas, mas não pode ser argumento contra a erosão do direito à greve. A distinção é importante. (*)

A sociedade protege o interesse geral estipulando os “serviços mínimos” que são vitais para o seu funcionamento regular. Mas “mínimos” significa sempre “mínimos”, e o terreno desse mínimo é o que atribuo às funções mínimas do estado: segurança dos cidadãos, defesa nacional, funcionamento regular dos corpos de emergência nos hospitais, bombeiros, etc. Fora disso, os “mínimos” já são máximos. Não tem sentido ser liberal quanto ao Estado e depois entender os “serviços mínimos”, que este tem que garantir numa greve, com uma latitude de obrigações típica de um Estado socialista, ou seja, tudo]

Publicado por [Rick Dangerous] às julho 1, 2005 02:31 AM

Comentários

Um bom dia para todos (ou talvez não). Eu sou o I.V.A. e a partir de hoje a minha taxa de 19% sobe para 21%. Eu até nem queria, porque vocês já pagam muito e o Estado não me utiliza da melhor maneira. Mas então? O patrão é que manda!

Publicado por [I.V.A.] às julho 1, 2005 07:47 AM

Boa!Curto, conciso e bem respondido.

Publicado por [rita] às julho 1, 2005 12:14 PM

Todos os anos, quase sem excepção, os professores têm feito greve. Alguém deu por isso? A última medida de luta que deu frutos foi uma invasão das instalações da DREL em Lisboa o ano passado por professores contratados. As negociações contínuas com Ministério da Educação ao longo dos últimos anos tem conduzido os sindicatos a exigências mais curtas e humilhantes. A arma que os profes têm são os exames e em última análise as avaliações finais. Eu apostaria nisso, mas há uns bons tipos no meu sindicato que optam pela prudência ou/e se organizam para impedir estes esquerdismos. Esses tipos bons têm-me lixado a vida, e feito com que a particpação sindical arrepie caminho.

Publicado por [operation wolf] às julho 1, 2005 01:17 PM

Operation wolf: motivos profissionais impedem-me de seguir de perto a luta dos professores e a situação política em geral... mas já deu para perceber que a estratégia política do PS para a função pública é inovadora, diferente e até mais inteligente da que estamos habituados... logo, confundir alhos com bugalhos parece-me ser de uma cegeuira política...

Segundo o que me contaram pessoas que andaram no terreno, aqui em lisboa, nas reuniões e mobilização preparatórias, eram precisamente os desgraçados dos contratados, que não vão ter emprego para o ano e que este ano estão a gastar todo o salário num quartinho e em gasolina, porque foram colocados em cascos-de-rolha; foram precisamente estes, que menos se interessaram em qualquer coisa desta luta.

Esta luta é sobretudo dos velhos professores. Dos que estão efectivos há uns bons anos... Do meu Pai, por exemplo, que dá 18 horas de aulas por semana e ganha 300 contos.

É pouco para um economista de 48 anos? Talvez... mas à hora... é puxadote...

Mas o melhor de tudo são as férias, ó Helena. Ele tem as suas reuniões, tem que fazer os horários e tal... Mas feitas as contas, até 15 de setembro, vai trabalhar tantas horas como as que eu faço em uma ou duas semanas.

O PS está com o slogan da "igualdade entre os trabalhadores" para poupar mais e mais dinheiro com a função pública, com os serviços públicos, etc... Eu acho que é uma vergonha o que o PS está a fazer é só demonstra o quão nojento e reaccionário é este Sócrates e a direita do PS... mas a forma como foi agarrada a questão dos professores, parece-me que originou um retrocesso na luta.

O único ponto positivo, foi o religar de uma série de velhos e acomodados quadros à actividade sindical e a uma luta. Mas isso também não contribui muito para o problema da Fenprof, que é a sua auto renovação e revitalização.

Publicado por [Saboteur] às julho 1, 2005 11:21 PM

Na questão das férias, não sei se depende dos professores, mas não é essa a experiência que tenho na família.
Na questnao dos salários, acho que continuas a esquecer-te que o trabalho de um professor não acaba dentro da sala de aula, e as horas de trabalho são muito mais do que as horas de aulas.

Já agora também quanto a quem se interessa pela luta: é uma questão, entre outras, de cultura e de geração. De facto a geração dos nossos pais tem maior consciência de cidadania e de sindicalismo. Sabem por experiência que a união faz a força.
Na nossa geração (e calculo que sejas da minha) são mais raras as pessoas que pensam assim.

Por outro lado, quem está em posição demasiado fragilizada tem sempre pouca disponibilidade para pensar em greves ou manofestações. Aliás é essa uma das mais fortes razões para o movimento grevista ser muito maior noutros países da Europa: as pessoas podem "dar-se ao luxo" de fazer greve. A lei protege o emprego e podem abdicar do salário do dia de greve.

Publicado por [Helena Romao] às julho 2, 2005 12:47 AM