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julho 02, 2005

Razões para apoiar uma greve

O meu irmão tem 14 anos e passou para o 8º ano. A minha antiga professora de História do secundário tem 60 anos. Eu tenho pena da senhora, mas acima de tudo tenho pena do puto, que não merece uma coisa destas.

Eu tenho 26 anos, sou licenciado em História e atendo telefonemas na vodafone. Enquanto a camada bolorenta que se arrasta nos níveis superiores da carreira docente não for à sua vida, as escolas continuarão a ser este acumular de conhecimentos mortos que todos nos habituámos a suportar.

Mais ainda cumpre dizer que a produtividade do trabalho vem aumentando incessantemente, o que equivale a dizer que os ritmos se tornaram em todo o lado mais intensos e a exploração maior. Lutar contra o trabalho tem essa face concreta de lutar contra o acréscimo de trabalho que tanto pode ser a isenção de horário, as horas extraordinárias impostas ou o aumento da idade de reforma. As lutas e os direitos estão interligadas e alimentam-se mutuamente. Cada derrota parcial tem repercussões a nível geral. Cada sector que recua ligeiramente contribui para o recuo gigantesco de todos os sectores.

Tudo isto Saboteur conhece e sabe tão bem como eu. É por isso mesmo que eu tive de descer tão baixo ao ponto de contrapor às suas as palavras de Pacheco Pereira.

Porque a greve só pecou por tímida. Tal como Pacheco Pereira escreveu, os serviços mínimos tornaram-se um truque dos governos contra a impopularidade das greves. A greve serve precisamente para demonstrar que o trabalho dos grevistas é precioso porque muito depende deles. Esta greve aos exames cumpria esse papel.
Mas a FENPROF é sempre a primeira a recuar ao mínimo sinal de conflito e luta de classes, tudo o que lhe retire em suma a credibilidade de parceiro social que com tanto esforço persegue.

As "circunstâncias difíceis" não podem servir de desculpa permanente para todos os recuos. O secretariado do PCP parece ter tido acesso à publicação no spectrum.

Os impasses dos movimentos sociais residem precisamente na incapacidade de colocar o conflito social no centro da cena política. Tudo parece residir na boa vontade desta ou daquela liderança ou facção partidária, no carisma deste ou daquele personagem. Tudo parece incontornável e irremediável. Tudo se reduz ao combate pelo mal menor. Permanecemos aprisionados nesse impasse e nos lugares comuns que dele decorrem. O post de Saboteur em nada contribuiu para nos libertar.

Publicado por [Rick Dangerous] às julho 2, 2005 10:23 PM