« Vou entrar de férias | Entrada | O trabalhinho é muito bonito »
junho 29, 2005
Ilustração da situação político-social portuguesa
Na esmagadora maioria dos países do mundo os enfermeiros reformam-se mais cedo do que os outros trabalhadores. É fácil de perceber que, depois de 30 anos a lavar velhos, a fazer pensos em feridas asquerosas e a conviver todo o dia com todo o tipo de doenças, vírus e bactérias, ninguém tem mais condições para – com motivação e qualidade que o serviço exige e os doentes merecem – chegar aos 55 anos e ainda fazer mais 15 do mesmo.
A greve dos enfermeiros - ao contrário da dos professores - é de uma justiça que se mete pelos olhos dentro.
Também é por isso que a greve dos enfermeiros está a ser um sucesso absoluto, com adesões muito próximas das dos 100%.
Mas quando a jornalista pergunta ao dirigente sindical "o que espera que seja a reacção do Governo a esta greve?", o homem responde "que não espera nada do Governo"; queixa-se que o Governo não trata com dignidade os enfermeiros e queixa-se da sua maioria absoluta que lhe dá todos os poderes.
Tal como a oposição de esquerda, o movimento dos trabalhadores não tem programa, não se assume como alternativa, não assume que a sua missão é governar e não fazer apenas oposição e agitação.
É por isso que o pós-Sócrates vai ser igual ao pós-Guterres: Um neo-Durão Barroso...
Publicado por [Saboteur] às junho 29, 2005 09:26 AM
Comentários
Ah, porque um professor que passe 36 anos a aturar esquerdalhos como tu, também deve ter uma paciência do caralho para trabalhar até aos 65. O esquerdismo a cumprir o seu papel histórico de dividir os trabalhadores.
Publicado por [Anónimo] às junho 29, 2005 11:57 AM
LOLOLOL mt bom o ultimo comment!
Opah comunistas fascistas são todos as mesma coisa, kerem é ditaduras...quem não está de acordo com as ideias deles está contra eles...lembra me os outros meninos que estiveram no martim moniz! A única esquerda com saída é o socialismo... olhem o que fez o comunismo na urss e em todos os países onde esteve...os milhoes de mortos que provocou, igualmente provocaram outras ditaduras de direita!!! É por estas e por outras que tenho vergonha de pertencer a raça humana..onde não se respeitam os direitos dos outros!
Publicado por [Nuno Ferreira] às junho 29, 2005 12:29 PM
Ó Saboteur, tu nunca deste uma aula, pois não?
Dependendo do nível, um professor tem que preparar as aulas, manter-se sempre em dia com a evolução dos assuntos que ensine (a publicação de legislação, o avanço da ciência, etc.), manter-se em dia com os interesses dos alunos para poder captar-lhes a atenção, preparar aulas e materiais, fazer testes, corrigir testes.
Dar as aulas: fazer face ao mau comportamento de alguns alunos, com casos quase impossíveis de controlar, passar horas em pé, quase parado na sala de aula, falar alto para toda a sala.
Para quem não sabe, os professores são um dos grupos profissionais mais sujeitos a depressões e esgotamentos. São também um dos grupos mais sujeitos a problemas graves de voz.
O avanço da idade da reforma aplica-se a pessoas que já trabalharam quase 40 anos, e que já foram confrontados há 2 anos com um primeiro avanço da idade de reforma.
Mas além disto, todas as greves contra o aumento da idade de reforma são justas. Não há português nenhum que não saiba o que é preciso fazer para conseguir o dinheiro necessário para enfrentar a crise. Só os senhores dos sucessivos governos assobiam para o ar e fingem não ver.
Porque é que fugir aos impostos, roubando ao Estado (e portanto aos cidadãos) milhões de euros é um direito adquirido intocável e a reforma não?
Porque é que ter fortunas incalculáveis sem um mínimo de solidariedade é um direito adquirido, mas a reforma por inteiro dos trabalhadores não?
Publicado por [Helena Romao] às junho 29, 2005 02:44 PM
Helena:
Já dei formação a uns rapazolas bem grandinhos e sei que ao fim de 8 horas estava esgotado.
Sei bem que deve ser bem duro aturar os putos... mas também por isso e por tudo o que tu escreveste, há os horários reduzidos, há os periodos de férias escolares, há os intrevalos de hora em hora... tudo caracteísticas da profissão que a torna mais toleravel (e tão procurada entre os jovens recém-licenciados)
Mas sobre a reforma o ponto é outro: Já tive opurtunidade de falar com médicos com muita experiência na gestão e na vida dos hospitais e o meu Pai (e todas as suas namoradas) são/foram professores... E o que é facto é que há muito pouco ou quase nada que um@ enfermeir@ de 55 anos possa fazer, e (sobretudo) melhor do que um enfermeiro jovem... Já no sector do ensino, mesmo abdicando de dar aulas, há um mar de coisas que um professor pode fazer depois de velho, com uma grande mais valia para a sociedade.
Publicado por [Saboteur] às junho 29, 2005 08:07 PM
Anónimo: Esquerdistas são aqueles que estão a "puxar" pela luta dos professores em moldes tão espatafúrdios que conseguem pôr toda a gente contra eles...
Já muito fez o Secretariado da Fenprof para travar uma "greve aos exames" e convocar apenas uma greve que coincide com o periodo de exames. E sorte teve o movimento que as criancinhas fizessem todas os exames... Senão teriamos uma revolta popular contra os professores tão grande que até a CDU tinha de tirar os professores das suas listas de apoiantes (e colocá-los como "empregados", claro)
Publicado por [Saboteur] às junho 29, 2005 08:18 PM
Helena, acho que esta irónica justiça acontece porque as prioridades se definem lá em cima. E, vistos de lá de cima, todos nós parecemos muito pequeninos. Somos uma espécie de formiguinhas ao serviço e sabe-se que o pé grande, quando pisa o formigueiro, nem dá por isso...
Ou então é esta balança estatal que está desafinada:
- uns têm direito aos subsídios de integração (porque, após 3 anos parlamentares, é normal que o retorno à sociedade traga algumas dificuldades de adaptação!) e às pensões vitalícias (porque 12 anos - quais 30 ou 40 - de alto serviço ao Estado devem ser reconhecidos por toda uma vida!);
- os outros, para equilibrar esta nossa balança, têm o dever, claro está, de descontar uma vida inteira (sob todas as formas e feitios, satisfazendo todas as vontades e caprichos deste Estado de muitos rostos e gostos!).
É normal que a balança não se afine, apesar de tão esforçadas tentativas de equilíbrio, que os nossos governantes falsamente apregoam. Esta crise político-sócio-económica que afunda a nossa nação faz lembrar aqueles naufrágios em que, com o pânico, todos se juntam, ora a um lado ora a outro, tentando evitar o efeito das ondas e acabando por tirar ainda mais estabilidade ao barco...
Enfim, o que verdadeiramente me custa é saber que os tais subsídios e vitalícias são o precaver de um futuro que os senhores que pertencem ao meio sabem que está ameaçado para muitos. Esses muitos que descontam, esses muitos a quem já não resta sequer uma reforma antecipada. Esses muitos que daqui a 15 anos talvez já não recebam a reforma não antecipada, pois a falência do Estado já se prevê para daqui a uma década. Até lá, teremos contudo o dever de descontar, enquanto que os que podem salvam-se...
Quanto à problemática do ensino, acho que é de lamentar que professores com qualidade, que teriam muito a dar para a formação e sensibilidade dos seus alunos, sejam obrigados a submeter todo um potencial às exaustivas corridas de velocidade impostas pelos nossos programas de efeito descartável (quanto do conhecimento decorado e fixado é de facto compreendido e assimilado?). Julgo que o 1º passo é mesmo pôr um ponto final nestas votações de tendência já viciada que levam à eleição de gente desacreditada.
Um bem-haja aos que são vítimas de stress no local de trabalho.
Mente sã para um trabalho são.
Publicado por [Voice ON] às junho 29, 2005 09:03 PM
Digam o que disserem os professores, a profissão de enfermeiro é muito mais desgastante!
Quem não o quiser ver, ou é gego ou não quer ver.
Publicado por [mfc] às junho 29, 2005 10:12 PM
Saboteur,
os números não enganam. A profissão de professor é das mais desgastantes e uma das mais sujeitas a problemas de foro nervoso e mental.
Dizes que há outras coisas que um professor em fim de carreira pode fazer. Poderia, sim. Se nas nossas escolas houvessem horários completos com sala de estudo incluída no horário dos alunos (que também evitaria o problema das crianças abandonadas metade do dia à sua sorte), bibliotecas dignas desse nome nas escolas, clubes dedicados a actividades várias, como o teatro, a ciência, a literatura, a música... Mas não há. Há pequenas amostras, experiências aqui e ali, mas ~ão é sistemático.
As férias lectivas? Isso é para os alunos! Os professores têm férias como os outros trabalhadores! Têm as reuniões, a preparação do ano-lectivo, das matérias, são designados por exemplo para fazer horários, têm os exames (as várias chamadas). Acho que nunca vi a minha mãe tirar todos os dias de férias que lhe eram devidos, havia sempre mais alguma coisa a fazer na escola.
Quanto à apetência da profissão: já reparaste que não existe investigação em Portugal? Para muitos cursos não há alternativas! Os mestrados e os doutoramentos são caríssimos, quem quer fazer ciência (exactas ou humanas) tem que começar a trabalhar no fim da licenciatura para pagar o prosseguimento de estudos. E no fim destes graus, volta para o ensino, porque não há investigação em Portugal.
Mais. A forma como esta mudança nas reformas (e a anterior) foram feitas faz com que dois professores que tenham entrado ao serviço em dois dias consecutivos há 36 anos, tenham uma diferença nas suas reformas de 40% no valor de pensão e de dez anos no tempo! Só porque um começou na segunda e outro na terça!!! No mínimo é uma aberração!
Mas mais ainda, e era aqui que eu queria chegar, tudo isto leva apenas à divisão da sociedade. Já temos professores vs. enfermeiros, empregados do privado vs. funcionários públicos... esta divisão é o jogo dos governos (PS e PDS).
Não entendo. Não entendo como é que um funcionário do privado, que tem toda a razão em estar furioso por haver discrepância no tratamento entre público e privado, em vez de querer ter direitos iguais aos dos funcionários públicos, quer é que estes últimos desçam! Em vez de virar as suas razões contra quem perpetua este sistema (governo e patronato), descarrega raiva sobre os funcionários públicos!
Não entendo. Afinal, andamos a contar migalhas na miséria alheia em vez de resolvermos os problemas.
Quando é que vamos unir-nos para combater os verdadeiros problemas? As soluções são mais que conhecidas!
Notas:
Claro que há uma percentagem de professores que querem fazer exactamente isso e adoram a sua profissão. Eu conheço alguns. O que não lhes retira a vontade de ter os seus direitos...
Claro que com isto não quero dizer que a de enfermeiro não seja desgastante. Mas vamos enumerar todas as profissões desgastantes e pô-las à luta umas contra as outras, ou vamos resolver os problemas de todos?
Publicado por [Helena Romao] às junho 29, 2005 11:02 PM
Os jovens-licenciados ´so procuram o emprego de profes porque não têm mais para onde ir;
Publicado por [Anónimo] às junho 29, 2005 11:24 PM
Os privados não falam em reformas a partir dos 55anos pela mesma razão que tu não dizes querer ter os mesmos privilégios dos deputados. O que tu - e eu também - queremos é terminar com esses privilégios.
Ora
Da mesma forma os trabalhadores privados vêem os funcionários públicos - como um grupo de priviligiados.
E não me venhas falar no cansaço e no trabalho que é vigiar a realização de exames nacionais ou corrigir testes na esplanada da brasileira.
Publicado por [pa] às junho 30, 2005 02:30 AM
