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junho 18, 2005
Idolatria
O Cunhal morreu e eu quase não dei por isso. Assisti com alguma tranquilidade e distância às manifestações post mortem. Por um lado tinha muito mais que fazer nesses dias para me dar ao luxo de ocupar espaço mental com as peripécias à volta das festas funerárias. Mas isso não chega para explicar o dessentimento que experienciei. Como se tudo isso me fosse estranho e como se não conseguisse fugir à tentação do olho clínico, asséptico, incapaz da emoção. Nesses termos, qual o sentido de uma participação no ritual?
O que terá levado 250 000 pessoas a sentirem necessidade de adorar uma última vez o corpo do ídolo? Eu, que me considero uma pessoa com relativas preocupações comunistas, posso conseguir perceber mas não consigo sentir. A experiência de militância partidária terá cavado tão fundo ao ponto de cauterizar a possibilidade de comunhão num ideal? Ou será isto uma forma de alienação social?
Publicado por [Renegade] às junho 18, 2005 01:03 AM
Comentários
Eu também não sei, mas comigo também se passou quase o mesmo. E fiquei a pensar se devia tersido de outra forma e porquê.
Publicado por [rita] às junho 18, 2005 02:33 AM
Não te preocupes que gajos como tu não fizeram lá falta.
Publicado por [Anónimo] às junho 18, 2005 11:20 AM
Eu fui. Mas senti-me de alguma forma enfurecida com "os gajos que faziam lá falta" e que surgiram na Praça do Chile com gritos como "Assim se vê a força do PC". Primeiro senti-me revoltada, depois comecei por racionalizar o slogan e acabei por concordar com ele. Não sei se me entendem, se morre um homem grande e ficamos sem ele, isso represente uma perda. A força não se mede com perdas mas com ganhos. Pelo que a morte de um comunista grande, sendo uma perda, mostra a força do PC. Gostaram do silogismo?
Publicado por [Joystick] às junho 20, 2005 07:40 PM
Mais do que de qualquer silogismo, gosto da analogia entre a idolatria a Cunhal e a idolatria ao futebol.
Para bem da evolução do meu espaço mental, não me dou à miséria (qual luxo?) de o ocupar com peripécias e grandes emoções à volta das festas futebolísticas. Também a mim me perece algo estranho o êxtase que se vive e a forma como através dele a religião parece ganhar força e presença no mundo do futebol: preces, promessas e idas a Fátima, "Se Deus quiser seremos campeões"... O que levará tantas pessoas a adorar, e sempre, mais do que a um ídolo, o futebol? Seja o seu todo, a selecção, o clube ou um jogador...
Será pela comunhão do ideal que também aqui está presente? O amor à camisola ou o amor à vitória? Será a malta, os copos e a algazarra? Julgo que é mesmo essa tal alienação, ou a fuga à triste realidade, fazendo do futebol a componente boa dessa mesma realidade. Por trás do desporto, fica a esconder-se o negócio. Por trás da paixão, a secura de uma vida, onde se espera a vitória do clube para que haja o grito de campeão, que provavelmente em nenhuma outra situação da vida é assim experimentado.
Contudo, em nada se analoga ou compara a fidelidade dos milhares de camaradas ao seu líder com a fidelidade de Jesus ao Benfica. Como se viu no jogo da conquista do título, a t-shirt por baixo do uniforme benfiquista dizia: "Jesus foi fiel". Pergunto-me se, podendo dar-se o caso da derrota, tinham os jogadores uma terceira t-shirt dizendo: "Jesus foi infiel".
Como seria esta indecente situação de desrespeito para com a figura de Jesus tolerada e até vista como sinal do espírito de um Benfica cristão, não fosse o futebol, mais do que a política, os ideais, ou a própria religião, um fenómeno de fanatismo global? Torna-se interessante uma análise psico-social deste fenómeno e triste o sentido que ele dá para o que seria a luta por uma componente boa da realidade?
Até quando andaremos às voltas, torto ou a direito, por altos e baixos? Até quando andaremos à deriva, julgando-nos bem orientados, só porque a maioria também deriva? Somos a deriva ou o derivado de algum palavrão desconhecido cujo sigificado não cabe no dicionário... Somos o produto das múltiplas expressões da sociedade? Ou somos o total, ao qual a sociedade subtrai uma certa essência? Somos a adição, conforme a nossa ambição? Ou é conforme esta que fazemos a divisão?
Feitas as contas, e voltando ao futebol, julgo que muito ganharíamos com a sua perda, não fosse o espaço mental tão limitável, apesar de ilimitado. Mas, ao que parece, se o espaço mental é supremo e o futebol é supremo, logo o futebol é o espaço mental, não é assim? Sei que poucos gostarão destas minhas palavras "anti-futebol" , se bem que eu nada tenho contra este ou qualquer desporto, apenas contra a sua fenomenal envolvente, reveladora, no mínimo, de uma certa falta de discernimento, acompanhada de um tanto excesso de interesses.
Publicado por [Voice ON] às junho 21, 2005 04:15 AM
Joystick: Percebe-se pk te enfureces tão facilmente... Deve ser do teu raciocínio tão lógico! Aliás pareces-me mt coerente no que dizes e no que fazes... Foste ao funeral do àlvaro, mas acabas por criticar o que foi a vida dele: o PCP!
Publicado por [Anónimo] às junho 21, 2005 11:41 PM
Não tinha pensado no futebol. Mas gostei do seu comentário, MSN. Lindo silogismo, boa.Enquanto houver vacas sagradas, "silogismar" é preciso!
Publicado por [renegade] às junho 22, 2005 12:50 AM
tudo muito certo mas por amor à santa, o que é que isto tem a ver com um funeral onde estiveram 250 mil pessoas a não ser o facto de haver muita gente junta?
Idolatria parece-me um título que acerta ao lado. "Adorar o corpo do líder" também. O funeral foi a homenagem na dimensão justa do que representa Cunhal. Independentemente das trincheiras que ocupemos deste lado da barricada.
Apesar da organização e presença, óbvia, do pcp, o que se sentiu, mais do que isso, foi o povo ter vindo à rua.
Publicado por [operation wolf] às junho 22, 2005 09:18 AM
E o que é que o amor à santa tem a ver com isto?
Será que tudo tem a ver com tudo, e o tudo é o Uno?
Publicado por [Voice ON] às junho 24, 2005 07:47 AM
