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junho 20, 2005
Episteme e Chocolate

Alguém que amo contou-me que, quando era miúdo, gostava de ir a uma geladaria lá do sítio onde morava e pedia sempre duas bolas, logo dois sabores: chocolate e outro que podia oscilar da baunilha a uma fruta qualquer (relembrem-se que, na nossa infância, não havia praliné cream nem stawberry cheesecake, e outras delícias de marca americana a soar a alemã).
Bem, um dia um novo namorado da mãe levou-o a pedir os tais dois sabores, mas antes perguntou-lhe:
- «Então, quantas bolas vais pedir?»
- «Duas.»
- «De que sabores?»
- «Chocolate e baunilha.»
- «Qual é o teu sabor favorito?»
- «Chocolate. Do que eu gosto mais é de chocolate.»
- «Então, porque é que não pedes duas bolas de chocolate?»

Enfim, um mundo inteiro revelado. Assim, num estalar de dedos. Um mundo inteiro novo, perante os olhos de uma criança que se encontrava no registo do possível. O possível aplicado a uma teoria sobre sabores que acompanhem chocolate, mas ainda não o possível do chocolate como o melhor sabor de todos e, por consequência, o melhor sabor para acompanhar... chocolate. O possível para lá do "possível" de agora.
Enfim, e eu cá conto sempre isto a pessoas perante situações que exigem saltos "epistemelógicos", ou perante ideias quadradas, feitas à medida e resolvi partilhar convosco esta história.
Cada vez mais acho que nos encontramos no registo do chocolate-com-outro-sabor-a-acompanhar, porque queremos negar - ou os outros negam-nos - a possibilidade de experimentarmos coisas diferentes. Falo de política, mas de outras coisas para além da política.
Sim, confesso, em política, mais do que nas outras coisas, vivemos ao ritmo do raciocínio «DUAS BOLAS = DOIS SABORES» e eu aguardo, ansiosamente, pelo dia do segundo boom:
TRÊS BOLAS DE CHOCOLATE
TOPPING DE CHOCOLATE QUENTE
PEPITAS DE CHOCOLATE
SERVIDO EM CONE COBERTO DE CHOCOLATE

Publicado por [Joystick] às junho 20, 2005 07:50 PM
Comentários
Brilhante metáfora!
Publicado por [Randomblog] às junho 21, 2005 09:41 AM
Vogliamo Tutto!
Publicado por [Sadik] às junho 21, 2005 06:18 PM
Ai que coisa tão bonita!
Sabes que quando acabei o diálogo não tirei a conclusão imediata que tu tiras depois? Foi antes "pronto, lá veio a mãezinha quebrar totalitariamente o sentido de diversidade inato da criancinha. A criança até teria razão porque a diferença permite fixar melhor a identidade do gosto pelo chocolate...a comparação com a baunilha acentua o prazer do chocolate...
foi isto que me ocorreu
Publicado por [renegade] às junho 21, 2005 11:58 PM
E que bem que ocorreu, pois é mesmo por haver termo de comparação que tomamos consciência do melhor, não só nos gelados e na política, também na vida.
Quanto ao 3º boom, presumo que seja uma dor de barriga!!!
Publicado por [Voice ON] às junho 24, 2005 08:14 AM
