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abril 28, 2005

Sem cravo na mão a horas erradas

Nos pavilhões grandes das escolas faz-se ginástica, nos páteos principais das prisões dão-se voltas, no metro não se olha nos olhos de ninguém, na rua vêm-se montras e atravessa-se o caminho mais curto entre A e B. Estamos bem disciplinados e ninguém reclama muito de viver numa cidade fantasma, ninguém reclama de viver apenas uma representação daquilo que realmente queria, ninguém reclama de só se poder divertir em espaços comerciais, ninguém reclama que só haja uma produção cultural mediocre feita por elites estéreis e entediantes, ninguém diz nada acerca do que se passa ou deixa de se passar.
E portanto, quase fatalmente, os policias batem, os patrões roubam, os artistas filmam, as meninas das lojas fazem-nos provar calças, os proprietários cobram rendas, os cães ladram. Numa escalada de poderes todos menos tu têm alguma coisa a dizer.
E enquanto isto uma série de instituições onde no máximo és representado por elites, que num andar alto de um prédio espelhado, decidem como vão ser as tuas próximas opiniões e quais vão ser a tuas próximas compras e quanto é que vais precisar de uma merda qualquer que ainda não existe. E num parlamento ou numa câmara de representantes um outro grupo de pessoas decide por ti por quantos miseros euros vais trocar a tua vida num emprego que não suportas, dia após dia e mês após mês, decide quantos direitos terás tu na gestão do teu quotidiano, decide o que poderás ou não fazer com o teu corpo. E nas sedes dos partidos e sindicatos decide-se com ajuda de especialistas em marketing como é que vão explorar a tua insatisfação com toda esta merda que se passa, e como é que hão-de tomar conta de ti quando decideres tomar uma posição na tua universidade, no teu trabalho, no teu bairro

Tomar a cidade. Fazer dela o cenário de todos os excessos, ideias e desejos que se adivinham prestes a rebentar. Tirar o tapete aos gestores da nossa alienação quotidiana e escapar aos percursos de rotina e produção que, como autómatos, percorremos. Deixar de entender as ruas enquanto corredores estéreis entre o as instituições normalizadoras e repressoras e os espaços de consumo, para as transformar num labirinto de mil realidades criadoras de momentos que o poder não consegue nem penetrar nem comprender nem controlar. Experimentar aqui e agora o prazer de circular, derivar, bocejar, tropeçar, levantar, pintar, fumar e mascarar, celebrando os direitos inalienaveis da revolta e da festa. Interromper com a nossa presença a cidade normalizada pelas câmaras de vigilância, pelos painéis publicitários e pela especulação imobiliária. Tomar a cidade e combater o projecto de a transformar num amontoado de ghettos e condominios fechados, separados por sofisticados aparelhos de violência policial. Sair do esquema de requalificação urbana enche os bairros de yuppies de esquerda e de direita que tornam estéreis os espaços que ocupam. Subverter o processo de controlo

A cidade não é dos proprietários nem dos dirigentes trancados em condominios privados, mas de quem a vive, de quem a grafitta, de quem a percorre. Tomar a cidade e percebe-la enquanto campo de confronto: entre ricos e pobres, entre forças repressivas e necessidades
subversivas. Perceber que há um fio condutor comum que liga as lógicas do exercicio do poder que criam ghettos e condominios nas cidades e checkpoints nos cenários de guerra.

Aquilo que queremos tomar nesta festa é só uma pequena parte daquilo que nos espera. Tod@s ao Príncipe Real, no dia 24 de Abril, pelas 16.00

Publicado por [Rick Dangerous] às abril 28, 2005 05:16 PM

Comentários

É impressão minha ou esta festa já passou?

Publicado por [Joystick] às abril 28, 2005 05:32 PM

bom texto, muito neo-jmb do fmi. Quando é que vais comprar as tintas ao martim moniz?

Publicado por [renegade] às abril 29, 2005 01:36 AM

Foram mts, mts mil????!!!

Publicado por [atir] às abril 29, 2005 02:12 AM

muito bom manifesto para uma revolução que se publica atrasada. Uma pena.

Publicado por [Pedro Vieira] às abril 29, 2005 10:43 AM

Bonito, Bonito faz continuar a sonhar...

Publicado por [Magary] às abril 30, 2005 12:50 AM