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abril 01, 2005
Antagonismo difuso (para milu, lulu, spirou e mobutu)

Já me começa a chatear o pessoal a perguntar-me "Mas afinal de contas o que é que tu és agora, anarquista, esquerdista, situacionista, ou quê?"
A resposta mais óbvia e fácil é a de que eu não sou nada disso porque sou muito mais do que isso. Mas já que essa não responde a grande coisa e o pessoal não se convence de que seja verdade, vou dar umas curtas dicas.

Era uma vez... Após muitos anos de lutas operárias em itália, os patrões perceberam, ali um pouco como em todo o "ocidente", que já não era possível o tipo de utilização da força de trabalho típica do período fordista, com as grandes fábricas onde se concentrava todo o processo de fabrico dos bens de consumo de massas, com milhares de pessoas na linha de montagem a trabalhar a ritmos pesados.
Esse pessoal pura e simplesmente fartou-se e começou a fazer toda a merda possível dentro e fora das fábricas, coisas de outros tempos que não se podem repetir, classe operária altamente concentrada e homogeneizada, farta de ser explorada, com raiva aos patrões e à polícia, capaz de fazer parar tudo quando queria.
Então começaram a dividir e deslocalizar a produção, despediram o pessoal mais combativo, ficaram apenas com o mínimo indispensável e com o controlo sobre um processo produtivo doravante espalhado pelo globo.
(Aqui a coisa foi um bocado a mesma, só que com revolução e MFA, nacionalizações, controle operário e fuga de capitais e capitalistas para o estrangeiro)
E depois... O pessoal fodidíssimo e os seus filhos, netos e respectivos amigos, começaram a compreender que uma alteração estava a decorrer, num ambiente de crise económica e luta social muito agudas, que transformava a produção e a sociedade e a luta social. As lutas operárias haviam forçado os capitalistas a destruir a fábrica integrada verticalmente e a difundir a produção, complexificar as suas diversas fases, criar uma nova divisão mundial do trabalho e precarizar a relação entre capital e trabalho à escala global.
Criava-se aquilo a que os antigos teóricos da autonomia operária (que desde os anos 60 estudavam aquilo a que chamavam "composição política da classe operária" e a sua centralidade no modo de produção capitalista) vieram a denominar de fábrica social - a produção flexível, a valorização do trabalho imaterial e cognitivo e a desvalorização do trabalho classicamente denominado "produtivo".

Então... Sobre os cadáveres do sindicalismo, da social-democracia e do estado social, das formas de integração social e de controlo da reprodução da força de trabalho típicas do período keynesiano e fordista (que para além de caras, se demonstravam incapazes de criar a paz social), começou então a tomar forma este novo modelo de produção e de organização da sociedade. Antigas identidades foram pulverizadas através de uma magnifíca engenharia social repressiva. A cidade foi transformada para se tornar um espaço de permanente valorização do capital, com a sociabilidade, a circulação, a habitação, o trabalho e o lazer perfeitamente integradas e controladas num modo de vida e numa mundividência permanentemente anestesiadas. A esquerda clássica ficou a ver navios, a extrema-esquerda converteu-se à cidadania
E o proletariado, esse velho fantasma sobre o qual tantos falaram mas que sempre teve de partir alguma coisa para se fazer ouvir, foi dissecado e fragmentado em mil condições de trabalho diferentes (os que não ficaram na prisão ou no desemprego, claro). Dizem mesmo que deixou de existir, despedido pelos patrões ou convertido à classe média. De todo o mundo vieram emigrantes para fazer o seu trabalho. Para todo o mundo emigraram as linhas de montagem que outrora havia ocupado. E agora somos milhões, em todo o mundo, a fazer sorrir os acionistas.

E este pessoal fixe, que da esquerda leninista extraparlamentar passou à autonomia operária, e ao qual se foi juntando mais pessoal, começou a pensar nas novas formas e condições da luta de classes e a propôr novas categorias, descobrir novos problemas e identidades, a conceber um novo imaginário de conflito social que não seja apenas a ghettização ou a repetição de velhas palavras de ordem ou a conversão a modas ou a defesa à outrance do estado social.
Antagonismo difuso, auto-redução de preços, ocupação de casas e espaços, comunicação alternativa/tactical media, hacking, anti-copyright, estética queer, precariado metropolitano, luta contra as fronteiras, crítica das prisões e do controlo social.

Mil experiências e ideias que transportam uma vontade de libertação inadiável. Um partido informal (mas não o suficiente) contra o trabalho, que não viva de representações ou da miséria habitual dos pequenos grupos de militantes de extrema-esquerda. Que recusa a separação entre partido e movimento, entre movimento e movimento, entre o que quer que seja. E que, assim como assim, transportam um olhar lúcido, cínico e hedonista, sobre o mundo em que vivemos, bem como um terrível mau feitio e pouca vontade de negociar com o inimigo.
Pessoal do meu lado da barricada. Pessoal que quer tudo.
Publicado por [Rick Dangerous] às abril 1, 2005 06:42 PM
Comentários
Não custa perceber que a esquerda tradicional ficou agarrada ao passado. Continua a pensar a sociedade e o mundo do trabalho como o fazia nos anos 40 e 50. Ainda assim, sempre surgiram movimentos de ruptura com esse pensamento, formas de radicalismo espontaneo que acabaram por se esgotar em pouco tempo - Maio de 68, greves do sector automovel em Itália e mesmo o PREC. A merda é que foram coisas esporádicas e efémeras. Hoje, como nessa altura, continua a haver uma esquerda tradicional que pensa os sindicatos, os partidos e o poder como pensava e que só tem vindo a perder influência e poder de mudança - inexistente, de facto. A Social Democracia tornou-se definitivamente um rosto "simpático e bonacheirão" do capitalismo, o marxismo-leninismo arrumou a trouxa e foi-se com o novo modelo de trabalho de que falaste. Agora surgem os movimentos alter-global aos quais não prevejo futuro - passe a arrogância. E a visão de que falaste não foge muito ao anarco-sindicalismo mais puro - movimento, radicalismo, violência e integração social. Ou percebi mal?
Publicado por [Tiago] às abril 1, 2005 08:25 PM
Rick, Rick, estás mesmo preocupado com rótulo que não queres colar na camisola, mas que aparece lá na mesma todos os dias.
Chama-lhe o que que quiseres ou não chames, mas não te preocupes muito com isso
Publicado por [Paradise Café] às abril 2, 2005 10:04 PM
Eu também quero tudo mas para já ficava-me por uma lavagenzinha de louça que tornasse funcional a cozinha lá de casa...
Publicado por [alguém que usa a cozinha] às abril 2, 2005 10:58 PM
