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fevereiro 02, 2005
Colo

Nunca o assunto da homossexualidade foi tão abordado numa campanha eleitoral sem ser, no entanto, tratado politicamente. Santana já vai na terceira boca para o Sócrates - de fama de candidato paneleiro não se safa ele. Primeiro com o trocadilho dos meninos no recreio, depois com o desafio sobre posições acerca do casamento entre homossexuais e adopção de crianças, agora com a história do colo de mulheres, esse refúgio doméstico, que não só é uma alusão homofóbica como também sexista.
Santana achou uma forma eficaz de tentar desmembrar o discurso de boémio e até de promíscuo que rondava sobre si, um discurso ridículo que entrou no ouvido e na fala dos transeuntes, mas que, apesar de ridículo - convenhamos - afastava os conservadores de direita do próprio Santana, favorecendo a esquerda na exacta medida em que dispersava o segmento de direita extremamente patriarcal.
Agora, Santana achou um motor de união de conservadores e até, penso, tirou proveito da "tirada visceral e espontânea" do Francisco Louçã. Afinal, o líder do conservadorismo e autoritarismo não gerou vida. E porquê? Será homossexual? Somente Santana representa os valores supremos da família biparental heterossexual. O Francisco Louçã também, mas este não retira proveitos desta imagem, pelo contrário (e repito, PELO CONTRÁRIO, porque espontaneamente pensou nisso como um factor de superioridade moral inabalável).
Retornando ao colo, um dirigente do PSD foi ao DN dizer - como se fossemos todos mentecaptos - que o que Santana quis dizer foi que "José Sócrates sente-se bem ao colo dos poderosos, ele sente-se bem com o povo". Ó meus amigos... O pior de tudo é esta sensação de que a realidade da expressão verbal nos transcende a todos - apesar de surtir efeitos imediatos previstos e estudados que importa apagar politicamente em momento posterior - sendo que o conjunto dos iluminados explicar-nos-á a verdade por detrás da retórica, ciência clássica, entre a geometria descritiva e a lógica aristotélica, apenas conhecida pela elite da academia.
Mas a verdade é que o Sócrates também não fez o bonito sobre esta questão. Quando questionado sobre o desafio lançado por Santana acerca dos direitos de casais homossexuais, Sócrates não teve problemas em afirmar, peremptoriamente, que o PS estava interessado era em discutir os "problemas dos portugueses". Surrealista. Os gays, lésbicas e trangenders são, portanto, apátridas ou espanhóis. Agora, sobre o colo que Santana sugeriu que preferiria, escolheu contornar pela direita - são tudo "brejeirices". O que pode ser visto de duas formas. A primeira é olhar para a escolha do discurso como forma de campanha reles, sendo, portanto, uma questão de forma. A outra é considerarmos "brejeiro" o conteúdo. Sob esta última perspectiva, a homossexualidade não será só um problema, será também um problema de apátridas e de estrangeiros e, ainda, de apátridas e de estrangeiros bregas.
Publicado por [Joystick] às fevereiro 2, 2005 11:57 AM
Comentários
Eu acho que sobre os "outros colos" o santana estava a pensar naquela coisa de sócrates viver com a mãe....
Porque ele disse qualquer coisa do género: "nós, que já não temos o colo maternal, gostamos de nos sentir bem no colo de outras mulheres..." bem, ok... talvez se tivesse mesmo a referir ao boato do maricas.
Publicado por [Anónimo] às fevereiro 2, 2005 04:20 PM
o que se torna mais incrível é que a grande estratégia de campanha do PSD é transformar Santana Lopes no Baluartede da defesa dos valores e tradições morais do Portugal Salazarista, ou seja transforma-se assim PSL e o PSD num partido mais conservador do que o PP, e o que é mais ridículo, é que eles acreditam veementemente na estratégia, ao ponto de jogarem com as mesmas armas que a malvada da esquerda usou contra sá carneiro (o grande ídolo político de PSL - ou será Salazar??? já n sei bem).
PSL mostra a sua verdadeira face, a de um homem desesperado e absolutamente sem escrúpulos, só lhe faltava acender uma fogueira em pleno Terreiro do Paço e livrar o País desses meninos de colo.
Publicado por [Anónimo] às fevereiro 2, 2005 07:26 PM
Penso que Sócrates se saiu com elegância na resposta, não foi ao conteúdo das palavras de Santana Lopes que chamou brejeirices mas à forma. Ainda hoje ouvi a repetição e acho que ele foi cuidadoso, disse mais ou menos: "há insinuações que visam, na mente daqueles que a utilizam, denegrir-me". Este na-mente-daqueles- que-visam-utilizar-a-insinuação safa-o de dizer que acha que se sente denegrido pelo que é chamado. Apesar da conversa dos filhos, inevitável, Sócrates não diz que é ofensivo insinuarem ser homossexual, diz que é intolerável um candidato utilizar boatos falsos para tentar(na mente de quem utiliza) denegrir pessoalmente outro candidato. Já concordo perfeitamente na questão dos apátridas
Publicado por [operation wolf] às fevereiro 2, 2005 11:35 PM
O Santana e toda a sua pandilha são um grupo de gente sem princípios de espécie alguma. Vi o Professor Fernando Gil na RTPN. Ele é que tem razão: não sendo um Hitler, Santana tem, contudo a mesma capacidade de comunicação e de manobra das massas e para isso recorre a tudo.
Que país este que, provavelmente, lhe dará a vitória...
Voto BE
Publicado por [suy] às fevereiro 6, 2005 07:32 PM
