« Zaragata | Entrada | Poema para alevantar a moral / Bocage 4ever »

fevereiro 04, 2005

L'amore mio non muore

Algures abaixo, um tal de Saboteur informa os prezados leitores que eu vou votar em branco. Depois, com o sentido de humor que tod@s lhe reconhecemos, cita pacheco pereira. Eu não sei se quero entrar por determinados caminhos, mas não me importo de experimentar. Pela parte que me toca, votar em branco é tão desprezível como votar vermelho e negro.
Os meus amigos vão votar no bloco e alguns estão a fazer campanha pelo bloco, mesmo se, como todos sabemos, fazer campanha pelo bloco é fundamentalmente servir de figurante para uma qualquer encenação televisiva e/ou distribuir panfletos com palavras de ordem e declarações de intenções.

1- O bloco foi em tempos uma organização política contra o patriarcado. Não sabemos se deixou de o ser, mas todos pudemos ver Louçã na televisão a fazer a apologia da família e do milagre da vida.

2- O bloco gosta de se apresentar como esquerda anti-capitalista nos certames e eventos onde essa é uma condição necessária à respeitabilidade mínima (Fóruns Sociais, Esquerda europeia, eventos da 4ª internacional e por aí fora), apresentando-se no entanto como uma força de propostas e alternativas credíveis quando tal se torna indispensável. E é assim, com esta filosofia de chico esperto, como quem acha que pode ir a todas de forma mui camaleónica, que vão cantando e rindo os estarolas da nova esquerda.

3- O bloco adaptou-se à dimensão do debate e da luta política em portugal e, pragmaticamente, bate-se pelo melhor dos mundos possíveis. Mas está por recordar o momento de aceso debate em que este suave deslizar, da periferia para o centro do sistema político, foi decidido. A esquerda que não está cansada dispensa bem esses formalismo antiquados. A malta não quer saber dessas coisas. Uns poucos, altamente qualificados, decidiram. E isso chegou.

4- O bloco propõe uma modernização da sociedade e da economia portuguesa. A CDU também e o PS também. Qual é então a diferença entre os três?
O PS é evidentemente o partido dos interesses económicos fundamentais. Esse estatuto, que disputa com o PSD em cada eleição, é a condição fundamental para a vitória. Esse estatuto, conquistado nas eleições internas do PS pelo sumaríssimo programa de repôr o mínimo de credibilidade no sistema político e no governo, é o que explica a virulência da campanha do PSD ( a última pérola é o cartaz que pergunta "você quer que eles voltem?").
Mais choque tecnológico menos reforma da administração pública, eles propõem-se fazer o que o governo anterior não conseguiu - relançar a acumulação.
Se não tiverem maioria absoluta, negociarão, mas nunca no sentido de pôr em causa este programa. Para que lado se partirá então a corda ?

5- Deixamos de fora a CDU, que é doutro campeonato (a nuance do Jerónimo à volta do torno merece no entanto o destaque devido).
Fiquemos então com o bloco. Que se propõe valorizar o debate político, a democracia e o estado de direito, propondo um contrato social em torno do pleno emprego e do combate à precariedade, para além das obrigatórias posições sobre o aborto. Não há nisto nada de demagógico, como é evidente.
Trata-se de um mui moderado programa mínimo de reformas que assegurem uma nova legitimidade ao sistema político indo ao encontro das mais sentidas "aspirações das massas". De assegurar a coesão social e relançar a participação cidadã contra as lógicas da globalização neoliberal. Trata-se de assegurar que um outro mundo é possível e está ao alcance de um boletim de voto.

6- Mas na medida em que tudo isto age numa conjuntura específica, o que acontecerá se o PS não tiver maioria absoluta ? Que políticas irá o Bloco apoiar ou não no parlamento?
Sabemos que aprovará o primeiro orçamento e o programa de governo. Sabemos que assegurará a governabilidade, mas e depois? Quando os patrões, que se organizam já a contar com este debate e utilizarão toda a sua força para fazer vingar os seus projectos de reconversão autoritária da sociedade portuguesa, pressionarem e a "opinião pública" se erguer (com a independência de espírito que todos conhecemos) pelas "reformas necessárias"?
O que acontecerá quando a desagradável luta de classes vier interromper a ordem e o progresso desta modernização simpática que nos propõe o bloco? O que acontecerá quando as votações no parlamento tiverem impactos sobre a vida de milhares?

7- Não está em causa a vontade do bloco de esquerda de fazer face a esse outro bloco, social e político, que domina a sociedade portuguesa e o debate político, e que fabricou um consenso em torno das "mudanças inadiáveis".
Mas a estratégia que nos propõem os seus dirigentes (porque é disso que se trata) coloca-nos numa posição defensiva - ao fim e ao cabo a posição defensiva que desde 25 de Novembro de 1975 é ocupada pelo movimento operário e pela esquerda revolucionária, e que o surgimento do bloco se propunha precisamente inverter.
Depois será fácil chorar e acusar o desequilíbrio de forças. Quem aceita jogar o jogo no terreno do adversário, quem respeita as suas regras e as aceita como justas, não pode depois queixar-se. Mesmo se, como é habitual no caso da burguesia portuguesa, o adversário não cumprir essas regras.
A batota só é inaceitável num jogo de cartas. Quando se trata da luta de classe, anything goes. Perguntem a Sócrates, a Van Zeller, José Manuel Fernandes ou Portas. Eles sabem que é assim. Sempre foi assim. Eles mentem e eles ganham.

8- Os problemas estão pois noutros lugares que não os da ribalta eleitoral. Lugares que convocam outros debates. A dimensão presente das coisas não nos deve assustar. Em 1916, na conferência de Zimmerwald, onde se agruparam os sociais-democratas contra a guerra, o afluxo de delegados internacionalistas teria merecido de Lenine o comentário de que "os revolucionários de toda a europa juntos sabem numa carroça". Já então Illitch errava de modo grosseiro. Os revolucionários europeus estavam em toda a parte, tal como se viu nos anos posteriores.
A força das nossas posições não está na sua projecção mediática nem no aparelho político que as servem. As nossas ideias estão em todas as cabeças. O seu poder de contágio é grande. Autocarros como os que renegade descreve no post anterior existem aos milhares. O seu percurso não será sempre o mesmo.

Publicado por [Rick Dangerous] às fevereiro 4, 2005 03:19 PM

Comentários

Ricky, ma men:

O que quiz dizer com o meu post foi que: não havendo um movimento forte que apele à abstenção ou ao voto em branco, como forma de denúncia da situação insustentável, em que o actual sistema político-social, pôs a humanidade, como forma de reivindicação para que a situação mude, etc, etc... como forma de INTERVENÇÃO POLÍTICA, não havendo esse contexto, creio que a abstenção não é mais do que uma forma de passividade política, que, na pior das hipóteses, pode mesmo ser instrumentalizada pela direita contra a Democracia, ou por xicos-espertos como esse cabrão do Pacheco Pereira.

Na minha opinião, o voto nestas legislativas é mais um instrumento de intervenção política que eu não vou deixar de lançar mão. Pode não ser um grande instrumento, mas é um deles e eu vou usá-lo.

A questão é qual a melhor forma de usá-lo.

Eu creio que é dando força ao Bloco de Esquerda, que tem hoje no espectro partidário / parlanmentar o discurso com que eu mais me identifico.

Por outro lado, o Bloco e, em particular, o Francisco Louçã - que é a cara daquele partido, tem sido a força política / o político que mais tem apertado os calos à burguesia, sendo evidente que é o odiozinho de estimação dos neo-conservadores deste país.

Se o BE não sair reforçado destas eleições vai ser uma vitória para essa gente e uma derrota do tal discurso com o qual eu me mais me identifico, do fim do segredo bancário, do mais impostos para os ricos, da legalização da IVG, dos imigrantes, das drogas leves, do fim do pacote laoral, da educação gratuita, etc.

No entanto, obviamente, não penso que a luta está ganha, ou sequer que dará um grande passo em frente, se o BE conseguisse 5, 6, ou 8% dos votos. Mas se tenho 1 voto para atirar à cara de alguns filhos da puta que eu cá sei no dia 20, porque não usá-lo?

Mesmo que tenha feito um raciocínio do género "do mal o menos" para chegar até esta decisão...

Publicado por [Saboteur] às fevereiro 5, 2005 07:28 PM

Ricky my friend,

" O bloco foi em tempos uma organização política contra o patriarcado. Não sabemos se deixou de o ser, mas todos pudemos ver Louçã na televisão a fazer a apologia da família e do milagre da vida."

Duas coisas: gostava que me dissesses de que forma e' que o Bloco foi e ja nao e' "uma organizacao contra o patriarcado"; e se essa subita transmutacao se deve 'a boca do Xico ao Portas no debate. E' que confesso que ja me enjoa tanta merda em torno dessa boca e, se me permites, nisso o Spectrum esta ao nivel do Acidental ("nos tambem geramos vida").

Alias, nao deixa de ser curioso que nao reflictas por um segundo na campanha eleitoral em curso, em que a utilizacao da putativa orientacao sexual do Socrates e' usada sem pudor por PSL ou que facas tabua rasa da atitude dos sectores mais conservadores da sociedade tuga em relacao ao bloco (recomendo que vejas o editorial da grande reportagem desta semana, por exemplo). Esta sim, e' a ofensiva conservadora em curso 'a qual e' fundamental dar uma resposta. Cabera ao Bloco exclusivamente o protagonismo dessa contra-ofensiva? Claro que nao, mas a verdade e' que a tem feito. Perpetuar essa conversa do milagre da vida do Xico e' falhar o alvo e nao perceber realmente o que esta em causa.

Ultima nota: acho que nao podes querer elevar uma actividade como os debates do passadico, meritoria e com potencial e' certo, ao campeonato de umas eleicoes nacionais, quer gostes delas ou nao. E' da mais elementar dialectica, meu caro. Poderas construir um discurso e uma pratica politica alternativa, mas nao ha como escapar ao 'mainstream' eleitoral - e o seu desfecho nao e' alheio ao que se passara de futuro na casa ocupada.

E' este posicionamento que me faz confusao em muitas das tomadas de posicao "anti-sistemicas" pois nao e' irrelevante saber se o PSL voltara para a Camara ou qual a politica urbanistica do proximo governo por exemplo e sobretudo isto, que correlacao de forcas se estabelecera num proximo parlamento. O conflito esgota-se ai? Claro que nao, mas passa decerto por la.

(ultissima nota: acho de pessimo gosto colocares uma imagem usada por PNR's e companhia, na qual o bloco - como a tradicional cruz suastica - entra no caixote de lixo; what's the point?)

Abraco,
joe_dafundo

Publicado por [joe_dafundo] às fevereiro 5, 2005 10:03 PM

A questão fundamental está em analisar que as propostas alegadamente revolucionárias e fracturantes apresentadas nos últimos anos pela gente do Bloco são propostas que na sua esmagadora maioria têm barbas nas mãos do PCP. Atrevo-me inclusivamente a citar Eduardo Prado Coelho que recentemente se questionava porque é que as propostas são tão luminosas e reveladoras pela boca do Bloco e tão sombrias e inexistentes quando apresentadas pela boca do PCP. O que se depreende disto é que o BE não sendo nada de novo, inclusivamente mantém como líder o gajo que há mais anos é líder de um Partido em Portugal (deve inclusivamente bater o recorde da Carmelinda) tem de repente uma presença mediática e política como se de facto o fosse (aliás, o próprio Prado Coelho submete o BE a tema de várias das suas dissertações). Estamos perante aquilo a que se pode chamar "um mito" é isso mesmo, o BE é um mito, que se baseia no paradoxo de fazer aparecer o que já existe. Torna-se obrigatório depois disto questionar porque é que de repente (1998) aparece uma força que tem algo completamente novo e diferente e que ao mesmo tempo é de esquerda e que comulativamente consegue mediatizar as suas propostas de uma forma extraordinária... Dá que pensar, não dá? Como é que o semi-obscuro PSR, mais a ex-Shqiperista UDP mais uns recauchutados do MDP conseguem por no ar as suas propostas, furando e pondo em causa a plena força da ofensiva ideológica que serviu (e serve) de tropa de choque mental para abrir caminho ao capital no pós Guerra-Fria. Está aqui alguma coisa errada não está? Será que o BE não faz parte dessa mesma ofensiva? A ofensiva centra-se maioritariamente e de modo facilmente explicável no estrato que alegadamente mais favorece o BE, a juventude... Afinal como pode ser tudo isto? Talvez não seja assim tão ilógico, ainda para mais se ao mesmo tempo nos pusermos a pensar como é que a soma desses mesmos 3 partidos, com uma implantação militante, social e autárquica efectivamente restritas, instrumento fundamental do financiamento de um partido de esquerda, consegue ao fim de 5 ou 6 anos gastar numa campanha 75% daquilo que gasta a CDU. Como é que consegue colocar aproximadamente o mesmo número de outdoors que o CDS ou produzir documentos de campanha de tanta qualidade material. Como é que consegue, a título de exemplo, suportar financeiramente o trabalho de dois funcionário apenas no Distrito de Aveiro (!). Dá que pensar, não dá? E como é que este tipo de questões (que eu convido a que sejam refutadas e contrapostas) são tão raramente discutidas inclusivamente dentro da esquerda. E muito mais há a dizer, como os suspeitos elogios de figuras da direita ao papel e acção do Bloco, desde Luís Delgado (que tem sido pródigo nesse tipo de actividade) ao recente e mediatizado elogio de Mário Soares ao programa eleitoral do BE (numa altura em que nenhum dos restantes 4 grandes partidos tinha lançado o seu). Dizer que o Louça é o gajo que mais aperta os calos à burguesia é também fazer magia intelectual e não saber bem o que se está a analisar. Eu reconheço que é o gajo que aparece na SIC que mais lhes aperta os calos (inclusivamente ao Balsemão (!?)) mas se calhar, passando para o mundo concreto do longe das câmaras de verifica que a acção de outros agentes, tanto do mundo partidário como do mundo sindical fazem muito mais por isso... e há muito mais tempo!

Muito mais se poderá para aqui dissertar sobre a essência do BE e as suas demasiadas contradições evidentes, desde o terem roído a corda na corrida para a CML à manifesta acção encapotadamente atordoante levada a cabo quando conseguem influência num sindicato, passando pela presença no Bloco de personagens que há 5 anos pouco diziam de esquerda, passando pelo papel denunciadamente manhoso que os elementos do Bloco desempenham no movimento unitário estudantil, pelas relações estranhas de troca de quadros com o MR8... muito mais há a dizer, fica apenas isto, que continue a discussão.

Publicado por [Jeremias] às fevereiro 5, 2005 10:38 PM