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fevereiro 15, 2005

A desconfiança de esquerda vista pelo cartaz de cinema

1. That´s not what I call it, dear

Vera Drake está nos cinemas, e em todos os palanques de prémios cinematográficos. Um filme fantástico sobre a interrupção voluntária da gravidez e, a bem dizer, sobre classes e luta de classes. Vera é altruísta, vive num ambiente familiar atipicamente feliz, forrado de papel de parede com cores verde musgo e cornucópias sanguíneas, e corre em socorro de jovens em apuros. Não quaisquer jovens, somente aquelas que, ao contrário da filha da aristocrata em casa da qual faz limpeza a dias, não podem recorrer ao sistema legal para interromper uma gravidez – um ginecologista, um psiquiatra, uma clínica privada e 150 libras. É pós-guerra e a vida é difícil... e há quem jante pão barrado com banha sem sequer saber que pão barrado com banha não é coisa que se coma.

A questão essencial não está nos métodos – todos os investigadores fazem olhares chocados quando vêem os instrumentos rudimentares que Vera utiliza e imaginam fertilmente os usos proto-homicidas de um ralador culinário. A questão essencial está na capacidade de escolha da mulher, na definição do direito sobre o seu corpo, na diferenciação no acesso a tratamento condigno. Deste ponto de vista o pós-guerra é o agora. E eu, em Portugal do século XXI, ou vou à Clínica dos Arcos para um “tratamento voluntário da gravidez” ou vou às Veras Drakes, com a forte possibilidade de me deparar com uma menos benigna e mais mercantil.

Assim sendo, quanto a este assunto – que não muda o mundo mas que, para mim, enquanto mulher, muda muito, sem prejuízo do que sobre esta matéria influirão politicamente os debates do Passadiço – não só voto como sei que o meu voto pode representar uma alteração da perspectiva pseudo-hegemónica, propagada pela direita e pelo seu acordo pós-eleitoral, sobre a inviolabilidade do resultado do último referendo.

2. O cadáver de Hans Blix a ser devorado pelo tubarão do aquário do Kim Jong Il

Team America é um filme que é uma desilusão. Bate em todos e quando a culpa é de todos os culpados saem incólumes. Michael Moore é um extremista kamikase, sujo de mostarda de cachorro quente. Kim Jong Il o cérebro de uma acção terrorista global e Hans Blix... Bem, Hans Blix ameaça com uma carta que diz que a ONU fica desgostosa com a Coreia do Norte por não poder inspeccionar todos os quartos do palácio de Kim Jong Il. Um burocrata, portanto, que, como qualquer burocrata que se despreze, morre na boca de um peixe assassino, sob a gargalhada do coreano.

Eu cá tenho pena porque prefiro o multilateralismo à chacina da ONU, seja por novos conceitos estratégicos da NATO, seja por processos de legitimação de guerras preventivas, seja por “coligações” forjadas em ilhas atlânticas de acesso difícil, sobretudo se essas ilhas estiverem sob a administração do país em que vivo, seja por tubarões metafóricos de chefes totalitários. Assim sendo, eu voto contra a guerra no Iraque e, possivelmente, contra a guerra no Irão. O meu voto não mudará o sistema, mas pode ser que faça com que Condoleezza Rice reuna nas Bahamas, e não nos Açores.

3. Me, myself and I

Tarnation é uma obra plástica de recortes. Jonathan filma-se desde miúdo, transvestido e imaginando-se, regra geral, envolvido em cenas de violência doméstica e ambientes psicóticos. Uma autobiografia crua, contada ao som de melodiosas músicas, que atravessa fronteiras do cinema e sem pudores quanto a voyerismo. Mostra a mãe, totalmente desequilibrada – it’s a pumpkin, it’s a pumpkin –, em grandes planos pouco abonatórios, não se sabe se pela patologia se pelo tratamento por choques eléctricos.

Toda a imagética da sua família é reproduzida e oferecida na magnitude da sua disfuncionalidade. É uma obra que também fala de moral, mas de moral sem pingo de moralismo bafiento, que é a que este país tresanda já há algum tempo. Eu voto contra partidos que suspendem a campanha porque morreu a D. Lúcia, enclausurada desde a adolescência e testemunha da conversão da Rússia no próprio ano da sua “perdição”. Eu voto em partidos que não se benzem quando Jonathan filma o seu namorado, ou quando se fala em marijuana. Aliás, eu voto no partido que acha que estes dois últimos assuntos são questões políticas prementes dos portugueses.

Publicado por [Joystick] às fevereiro 15, 2005 08:10 PM

Comentários

Muito bem.

Entretanto, o King Card do Paulo Branco, já está deixando marcas indeléveis na blogosfera portuguesa, não é? O cinema está cada vez mais presente

Publicado por [Anónimo] às fevereiro 15, 2005 11:28 PM

A esperança é a última a morrer... Às vezes um só voto pode mesmo fazer a diferença...

Publicado por [francis] às fevereiro 16, 2005 12:33 AM

Bom post.

Publicado por [Renegade] às fevereiro 16, 2005 12:49 AM