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novembro 24, 2004
Simples desejo indiscriminado

Ela despiu-se praticamente com tanta presteza como ele imaginara, e quando atirou a roupa para o chão foi com aquele gesto magnífico que parecia aniquilar uma civilização inteira. O seu corpo branco cintilava ao sol. Mas só decorridos alguns segundos ele o olhou; tinha os olhos presos àquele rosto sardento, ao leve sorriso atrevido. Ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe nas maos.
- Já fizeste isto alguma vez?
- Claro que já fiz. Centenas de vezes. Bom, dezenas, pelo menos.
(...) O coração dele deu um pulo. Ela fizera aquilo dezenas de vezes: oxalá tivessem sido centenas, milhares. Tudo quanto sugerisse corrupção enchia-o sempre de louca esperança. Quem sabe, talvez o Partido estivesse podre por dentro, talvez o seu culto do esforço e da abnegação nao passasse de simples máscara a esconder a iniquidade. (...)
- Escuta. Quanto mais homens tiveres possuído, maior o meu amor por ti. Percebes?
- Percebo perfeitamente.
- Odeio a pureza, odeio a virtude! Só desejo que não haja no mundo uma única alma virtuosa. Quero toda a gente corrupta até à medula.
- Bom, nesse caso devo ser a pessoa ideal para ti. Sou corrupta até à medula.
- Gostas de fazer isto? Quero dizer, mesmo que não fosse comigo? Gostas da coisa em si?
- Adoro!
Era precisamente o que ele queria ouvir. Não o mero amor humano, mas instinto animal, o simples desejo indiscriminado: essa força que havia de destruir o Partido.
[George Orwell, 1991 (1949), 1984, Lisboa: Antígona, pp.130-131]
[Rick Dangerous]
Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 24, 2004 05:43 PM
Comentários
A imagem do corpo branco do Jerónimo a cintilar ao sol não me sai da cabeça.
Publicado por [Anónimo] às novembro 25, 2004 02:27 PM
