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novembro 24, 2004
Palavras necessárias

[Rick Dangerous]
Os camaradas da renovação comunista são incorrigíveis.
Tacteiam à direita e à esquerda, para dentro do partido, para fora do partido, com sede, sem sede e, agora, o XVII congresso do PCP, mais a novela Jerónimo de Sousa, ofereceu-lhes um presente com que se entreter.
Paulo Fidalgo procura teorizar acerca do novo secretário-geral do PCP e da classe operária portuguesa. Ambicioso, lança o seu olhar sobre os anos 30 e tece considerações sociológicas e históricas de grande alcance. Coisas boas e coisas originais. Mas nunca simultaneamente boas e originais. Seguem-se os comentários, para quem os quiser apanhar, e termina-se em jeito de interrogação. Obrigado.
1- Paulo Fidalgo começa por descrever Bento Gonçalves em tons entusiasta: "...o herói do arsenal do Alfeite, célebre pela sua perspicácia de análise – o livro “Palavras Necessárias” – e energia revolucionária.[...] Nos anos 30 do século XX, o torneiro mecânico do Arsenal representava o nervo da classe operária, precisamente aquela que nada tinha a perder com a luta, a não ser as amarras da opressão.
O proletariado industrial das grandes fábricas, organizado então segundo uma divisão de trabalho já complexa e senhor de uma tecnologia, avançada para aquele tempo, transportava uma disponibilidade intuitiva para abraçar e impulsionar a superação radical do capitalismo."

2- Esta descrição, que serve fundamentalmente para contrastar com a de Jerónimo de Sousa, não se baseia em nada a não ser na vontade de Fidalgo em encaixar as peças do puzzle da forma mais cómoda. Fidalgo desconhece o que se tem escrito e investigado acerca da história do PCP e do movimento operário português nos anos 30 ( e bastaria ter lido a biografia de Cunhal para compreender o vazio que sustenta estas afirmações), e só por isso pode achar Bento Gonçalves "perspicaz" e os operários do arsenal da marinha como senhores de uma "disponibilidade intuitiva para superar o capitalismo".
3- Bento Gonçalves, que entrou para o PCP após ter estado em Moscovo ao abrigo de uma acção de propaganda da Internacional Sindical Vermelha, foi um típico dirigente estalinista ("o homem da GPU" como lhe chamavam, excepcionalmente cheios de razão, os homens da CGT) e um sindicalista com os preconceitos e concepções típicas de um operário altamente qualificado profissionalmente. Sociologicamente, estava muito mais próximo dos operários qualificados ingleses que controlavam as associações sindicais até aos anos 80 do século XIX, impedindo a inscrição dos operários desqualificados e indiferenciados (que constituíam precisamente a massa da classe operária que viria a fazer tremer o capitalismo entre guerras).
E o arsenal da marinha era um representante perfeito do atraso tecnológico da indústria portuguesa da época (ao contrário do que viriam a ser as fábricas da cintura industrial de lisboa nos anos 60, nomedamente a Lisnave e a CUF) .

4- Bento Gonçalves opôs-se à greve geral de 18 de Janeiro de 1934, que classificou como "uma anarqueirada", e só o tratamento muito especial que o PCP dá à sua história permite celebrar simultaneamente a sua figura e a greve à qual se opôs, como páginas gloriosas da gesta comunista.

5- Mas há mais. Tendo sido assinado o pacto germano-soviético e encontrando-se Bento Gonçalves no Tarrafal, sem acesso a grande parte das notícias sobre o que se passava na europa, nem por isso hesitou em apresentar-se perante os fascistas que dirigiam o campo e disponibilizar-se para o que fosse necessário, ao abrigo das novas alianças. Chegou mesmo a gravar uma medalha para Carmona, com toda a sua "perspicácia de análise e energia revolucionária". Outros militantes do PCP, também prisioneiros, recusaram o pacto e foram proscritos por essa mesma razão.

6- Para além destas considerações, resta o texto citado por Fidalgo e que dá nome a este post, do qual pouco mais há a aproveitar enquanto contributo teórico do que o rigor na pontuação, gramática e ortografia. Leiam-no e confirmem. Até os textos actuais do Avante! parecem mais interessantes.
7- Mas Fidalgo não se fica por aqui. Ele tem teorizado largamente acerca da nova composição de classe introduzida pelas novas formas de organização do trabalho. E aqui o debate pode ser conduzido de forma mais séria. Mas Fidalgo nem por isso abandona a insutentável leveza dos seus argumentos. Resumida, a sua tese é de que a consciência mais avançada da classe operária se exprime na sua predisposição em gerir os meios de produção. E que os operários da cintura industrial de lisboa, por isso mesmo, são...uma classe sem futuro histórico.
"O actual candidato , faz parte de uma classe operária que, pelo contrário, é mais periférica no saber, expropriada da capacidade de organizar a produção e vítima do fenómeno do operário descartável – a ideia de um segmento da classe operária descartável é teorizada pelo marxista argentino, Juan Inigo Carrera. Transformado assim em peça de uma máquina é, de facto, por ela dominado, qual instrumento mecânico despossuído de toda a réstia de humanidade.Desumanização essa, que é simultaneamente condição incontornável, continuada, da sua valorização social, da obtenção do seu sustento e da sua família.
É um operário forçado a desumanizar-se para defender o que lhe resta de humanidade.
Como corolário da noção de ente descartável, deve somar-se a devastação dos cemitérios da grande indústria e das profissões eliminadas, fruto do progresso tecnológico e da globalização capitalista."

8- Em contraposição aos feios e decadentes operários da cintura industrial, Fidalgo enaltece os "novos segmentos de assalariados, portadores de capacidade tecnológica, detentores de um saber insubstituível na organização da produção e da vida social e que, portanto, fazem tremer o capital no seu papel dominante."

9- Seguem-se então dois parênteses necessários, em forma de interrogações(?).
O primeiro - o que foi realmente a classe operária das cinturas industriais de lisboa e porto ? quais as questões colocadas pela história de conflitos por ela protagonizada antes, durante e depois da revolução ? quais as leituras e respostas dadas pelas organizações políticas a esse protagonismo e, nomeadamente, por aquela à qual Fidalgo pertenceu e à qual o seu pensamento permanece obviamente filiado ? a que se deve então e como se processou a sua derrota, uma vez que ela parece explicar o espírito defensivo de que Jerónimo de Sousa seria o ponto mais alto?
O segundo - desta nova classe de assalariados fazem parte, sem contradições, os médicos que ganham centenas de contos e os precários das telecomunicações que não chegam aos três digítos de salário ? se é o seu saber que determina a sua ameaça sobre o capital, que fazer à sua raiva (sentem raiva os novos assalariados ?) e ódio de classe (sentem ódio os novos assalariados ?)? nenhum/a destes/as cognitári@s votou em Le Pen em França ou em Bush nos E.U.A.? nenhum destes novos assalariados é dominado por máquinas e a elas subordinado "qual instrumento mecânico despossuído de toda a réstia de humanidade"? o que é que eu tenho de fazer então para trocar o meu emprego, no serviço de apoio ao cliente da vodafone, por um desses novos empregos cheios de futuro? o que é a alternativa democrática, de que forma se articula ela com os "conceitos de totalidade e universalidade tão caros aos clássicos do marxismo, e de entre todos eles, a Lenine" e quando é que acabamos com o trabalho assalariado?

[Rick Dangerous]
Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 24, 2004 03:57 PM
Comentários
Deviam arranjar uma forma de estes posts de fundo não se perderem para sempre com o passar dos dias...
Publicado por [Anónimo] às novembro 24, 2004 06:15 PM
A ideia do Paulo Fidalgo / Juan Inigo Carrera parece-me bastante interessante: Os tipógrafos, por exemplo, já foram um segmento importante da classe operária, hoje já não existem. Foram substituídos pelos computadores. Idem para os metalúrgicos, substituídos por máquinas, operadas e mantidas por engenheiros saídos do IST e do ISEL.
Que isto resulte em consequências práticas na consciência política de velhos metalúrgicos e novos engenheiros, ao longo dos tempos, parece-me bastante lógico e claro. Preocupações e visões diferentes, bem com predisposições diferentes para tomar a direcção da sua vida (da sua empresa), nas suas mãos.
Já no texto do R. Dangerous, já não me parece tão clara a teoria que o ódio de classe seja um elemento assim tão absolutamente determinante para a tomada de consciência política.
Publicado por [Morcego Vermelho] às novembro 25, 2004 03:29 PM
Caro morcego,estou a trabalhar. Respondo amanha. Obrigado.
Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 26, 2004 01:48 AM
